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Festa a 14 de Novembro

flos-carmeli-1Deus vestiu o Monte do Carmo com arroios de água, fontes cristalinas, árvores frondosas, plantas e flores maravilhosas, ao mesmo tempo que adornou a Montanha espiritual com Profetas, Apóstolos, Mártires, Confessores, Eremitas e Doutores; quais açucenas imaculadas enchem os vales do Carmelo com o suave perfume da sua santidade. 
Os Santos do Carmo são uma grande multidão de irmãos que consagraram a sua vida a Deus, seguindo o caminho de Cristo, nos braços da Virgem Maria em oração constante e amor aos irmãos, a ponto de muitos terem bordado com o vermelho do seu sangue a branca capa do hábito da Mãe do Carmo, entregando a sua vida como mártires do Evangelho. 
Eremitas no Monte Carmelo, mendicantes na Idade Média, missionários e evangelizadores nas Descobertas, mestres e pregadores nas universidades, religiosas que enriqueceram o povo com a misteriosa fecundidade da sua vida contemplativa, apostólica e orante, leigos que nas suas vidas souberam incarnar com sabedoria a suavidade do espírito do Carmelo. Esta é a grande família do Carmo que, enquanto peregrina, se dedicou à oração constante e à caridade permanente, e, tendo terminado a sua prova, nos deixou o exemplo. Agora, os nossos irmãos, os santos do Carmo, chamam-nos enquanto cantam sem cessar ao Cordeiro Imaculado, vestidos de capas brancas. 
Contemplamos hoje esta multidão imensa de quantos Deus conduziu à Montanha Santa do Carmo para lhes fazer saborear, já nesta pátria passageira, as delícias da oração, o gozo da vida do Céu e os inumeráveis frutos da árvore da Vida. 
Que o exemplo de todos estes santos seja para nós um estímulo a vivermos inebriados pelo espírito do Carmo no seguimento de Cristo e na imitação da nossa Rainha, Mãe e Irmã, a Flor do Carmelo. Padroeira, Esperança e Estrela dos Carmelitas que já reinam no Céu e dos que ainda peregrinamos na terra.

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Oração

Nós vos pedimos, Senhor, 
que nos assistam com a sua proteção 
a Virgem Maria, Mãe e Rainha do Carmelo 
e todos os Santos da família do Carmo, 
para que, seguindo fielmente os seus exemplos 
sirvam a vossa Igreja 
com a oração e com obras dignas de Vós.

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CARTA ENCÍCLICA
MORTALIUM ANIMOS
DO SUMO PONTÍFICE PIO XI
AOS REVMOS. SENHORES PADRES PATRIARCAS,
PRIMAZES, ARCEBISPOS, BISPOS
E OUTROS ORDINÁRIOS DOS LUGARES
EM PAZ E UNIÃO COM A SÉ APOSTÓLICA
SOBRE A PROMOÇÃO DA VERDADEIRA
UNIDADE DE RELIGIÃO

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Veneráveis irmãos:
Saúde e Bênção Apostólica.

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1. Ânsia Universal de Paz e Fraternidade

Talvez jamais em uma outra época os espíritos dos mortais foram tomados por um tão grande desejo daquela fraterna amizade, pela qual em razão da unidade e identidade de natureza – somos estreitados e unidos entre nós, amizade esta que deve ser robustecida e orientada para o bem comum da sociedade humana, quanto vemos ter acontecido nestes nossos tempos.

Pois, embora as nações ainda não usufruam plenamente dos benefícios da paz, antes, pelo contrário, em alguns lugares, antigas e novas discórdias vão explodindo em sedições e em conflitos civis; como não é possível, entretanto, que as muitas controvérsias sobre a tranquilidade e a prosperidade dos povos sejam resolvidas sem que exista a concórdia quanto à ação e às obras dos que governam as Cidades e administram os seus negócios; compreende-se facilmente (tanto mais que já ninguém discorda da unidade do gênero humano) porque, estimulados por esta irmandade universal, também muitos desejam que os vários povos cada dia se unam mais estreitamente.

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2. A Fraternidade na Religião. Congressos Ecumênicos

Entretanto, alguns lutam por realizar coisa não dissemelhante quanto à ordenação da Lei Nova trazida por Cristo, Nosso Senhor.

Pois, tendo como certo que rarissimamente se encontram homens privados de todo sentimento religioso, por isto, parece, passaram a Ter a esperança de que, sem dificuldade, ocorrerá que os povos, embora cada um sustente sentença diferente sobre as coisas divinas, concordarão fraternalmente na profissão de algumas doutrinas como que em um fundamento comum da vida espiritual.

Por isto costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre frequência de ouvintes e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, fiéis de Cristo, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão.

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3. Os Católicos não podem aprová-lo  

Sem dúvida, estes esforços não podem, de nenhum modo, ser aprovados pelos católicos, pois eles se fundamentam na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois, embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.

Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente inclinam-se para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo. Daí segue-se claramente que quem concorda com os que pensam e empreendem tais coisas afasta-se inteiramente da religião divinamente revelada.

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4. Outro erro. A união de todos os Cristãos. Argumentos falazes  

Entretanto, quando se trata de promover a unidade entre todos os cristãos, alguns são enganados mais facilmente por uma disfarçada aparência do que seja reto.

Acaso não é justo e de acordo com o dever – costumam repetir amiúde – que todos os que invocam o nome de Cristo se abstenham de recriminações mútuas e sejam finalmente unidos por mútua caridade?

Acaso alguém ousaria afirmar que ama a Cristo se, na medida de suas forças, não procura realizar as coisas que Ele desejou, ele que rogou ao Pai para que seus discípulos fossem “UM” (Jo 17,21)?

Acaso não quis o mesmo Cristo que seus discípulos fossem identificados por este como que sinal e fossem por ele distinguidos dos demais, a saber, se mutuamente se amassem: “Todos conhecerão que sois meus discípulos nisto: se tiverdes amor um pelo outro?” (Jo 13,35).

Oxalá todos os cristão fossem “UM”, acrescentam: eles poderiam repelir muito melhor a peste da impiedade que, cada dia mais, se alastra e se expande, e se ordena ao enfraquecimento do Evangelho.

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5. Debaixo desses argumentos se oculta um erro gravíssimo

Os chamados “pancristãos” espalham e insuflam estas e outras coisas da mesma espécie. E eles estão tão longe de serem poucos e raros mas, ao contrário, cresceram em fileiras compactas e uniram-se em sociedades largamente difundidas, as quais, embora sobre coisas de fé cada um esteja imbuído de uma doutrina diferente, são, as mais das vezes, dirigidas por acatólicos.

Esta iniciativa é promovida de modo tão ativo que, de muitos modos, consegue para si a adesão dos cidadão e arrebata e alicia os espíritos, mesmo de muitos católicos, pela esperança de realizar uma união que parecia de acordo com os desejos da Santa Mãe, a Igreja, para Quem, realmente, nada é tão antigo quanto o reconvocar e o reconduzir os filhos desviados para o seu grêmio.

Na verdade, sob os atrativos e os afagos destas palavras oculta-se um gravíssimo erro pelo qual são totalmente destruídos os fundamentos da fé.

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6. A verdadeira norma nesta matéria

Advertidos, pois, pela consciência do dever apostólico, para que não permitamos que o rebanho do Senhor seja envolvido pela nocividade destas falácias, apelamos, veneráveis irmãos, para o vosso empenho na precaução contra este mal. Confiamos que, pelas palavras e escritos de cada um de vós, poderemos atingir mais facilmente o povo, e que os princípios e argumentos, que a seguir proporemos, sejam entendidos por ele pois, por meio deles, os católicos devem saber o que devem pensar e praticar, dado que se trata de iniciativas que dizem respeitos a eles, para unir de qualquer maneira em um só corpo os que se denominam cristãos.

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7. Só uma religião pode ser verdadeira: A revelada por Deus

Fomos criados por Deus, Criador de todas as coisas, para este fim: conhecê-lO e serví-lO. O nosso Criador possui, portanto, pleno direito de ser servido.

Por certo, poderia Deus ter estabelecido apenas uma lei da natureza para o governo do homem. Ele, ao criá-lo, gravou-a em seu espírito e poderia portanto, a partir daí, governar os seus novos atos pela providência ordinária dessa mesma lei. Mas, preferiu dar preceitos aos quais nós obedecêssemos e, no decurso dos tempos, desde os começos do gênero humano até a vinda e a pregação de Jesus Cristo, Ele próprio ensinou ao homem, naturalmente dotado de razão, os deveres que dele seriam exigidos para com o Criador: “Em muitos lugares e de muitos modos, antigamente, falou Deus aos nossos pais pelos profetas; ultimamente, nestes dias, falou-nos por seu Filho” (Heb 1,1 Seg).

Está, portanto, claro que a religião verdadeira não pode ser outra senão a que se funda na palavra revelada de Deus; começando a ser feita desde o princípio, essa revelação prosseguiu sob a Lei Antiga e o próprio Cristo completou-a sob a Nova Lei.

Portanto, se Deus falou – e comprova-se pela fé histórica Ter ele realmente falado – não há quem não veja ser dever do homem acreditar, de modo absoluto, em Deus que se revela e obedecer integralmente a Deus que impera. Mas, para a glória de Deus e para a nossa salvação, em relação a uma coisa e outra, o Filho Unigênito de Deus instituiu na terra a sua Igreja.

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8. A única religião revelada é a Igreja Católica

Acreditamos, pois, que os que afirma serem cristão, não possam fazê-lo sem crer que uma Igreja, e uma só, foi fundada por Cristo. Mas, se se indaga, além disso, qual deva ser ela pela vontade do seu Autor, já não estão todos em consenso.

Assim, por exemplo, muitíssimos destes negam a necessidade da Igreja de Cristo ser visível e perceptível, pelo menos na medida em que deva aparecer como um corpo único de fiéis, concordes em uma só e mesma doutrina, sob um só magistério e um só regime. Mas, pelo contrário, julgam que a Igreja perceptível e visível é uma Federação de várias comunidades cristãs, embora aderentes, cada uma delas, a doutrinas opostas entre si.

Entretanto, cristo Senhor instituiu a sua Igreja como uma sociedade perfeita de natureza externa e perceptível pelos sentidos, a qual, nos tempos futuros, prosseguiria a obra da reparação do gênero humano pela regência de uma só cabeça (Mt 16,18 seg.; Lc 22,32; Jo 21,15-17), pelo magistério de uma voz viva (Mc 16,15) e pela dispensação dos sacramentos, fontes da graça celeste (Jo 3,5; 6,48-50; 20,22 seg.; cf. Mt 18,18; etc.). Por esse motivo, por comparações afirmou-a semelhante a um reino (Mt, 13), a uma casa (Mt 16,18), a um redil de ovelhas (Jo 10,16) e a um rebanho (Jo 21,15-17).

Esta Igreja, fundada de modo tão admirável, ao Lhe serem retirados o seu Fundador e os Apóstolos que por primeiro a propagaram, em razão da morte deles, não poderia cessar de existir e ser extinta, uma vez que Ela era aquela a quem, sem nenhuma discriminação quanto a lugares e a tempos, fora dado o preceito de conduzir todos os homens à salvação eterna: “Ide, pois, ensinai a todos os povos” (Mt 28,19).

Acaso faltaria à Igreja algo quanto à virtude e eficácia no cumprimento perene desse múnus, quando o próprio Cristo solenemente prometeu estar sempre presente a ela: “Eis que Eu estou convosco, todos os dias, até a consumação dos séculos?” (Mt 28,20).

Deste modo, não pode ocorrer que a Igreja de Cristo não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista hoje e em todo o tempo, e também que Ela não exista como inteiramente a mesma que existiu à época dos Apóstolos. A não ser que desejemos afirmar que: Cristo Senhor ou não cumpriu o que propôs ou que errou ao afirmar que as portas do inferno jamais prevaleceriam contra Ela (Mt 16,18).

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9. Um erro capital do movimento ecumêmico na pretendida união das Igrejas cristãs

Ocorre-nos dever esclarecer e afastar aqui certa opinião falsa, da qual parece depender toda esta questão e proceder essa múltipla ação e conspiração dos acatólicos que, como dissemos, trabalham pela união das igrejas cristãs.

Os autores desta opinião acostumaram-se a citar, quase que indefinidamente, a Cristo dizendo: “Para que todos sejam um”… “Haverá um só rebanho e um só Pastos”(Jo 27,21; 10,16). Fazem-no todavia de modo que, por essas palavras, queriam significar um desejo e uma prece de cristo ainda carente de seu efeito.

Pois opinam: a unidade de fé e de regime, distintivo da verdadeira e única Igreja de Cristo, quase nunca existiu até hoje e nem hoje existe; que ela pode, sem dúvida, ser desejada e talvez realizar-se alguma vez, por uma inclinação comum das vontades; mas que, entrementes, deve existir apenas uma fictícia unidade.

Acrescentam que a Igreja é, por si mesma, por natureza, dividida em partes, isto é, que ela consta de muitas igreja ou comunidades particulares, as quais, ainda separadas, embora possuam alguns capítulos comuns de doutrina, discordam todavia nos demais. Que cada uma delas possui os mesmos direitos, que, no máximo, a Igreja foi única e una, da época apostólica até os primeiros concílios ecumênicos.

Assim, dizem, é necessários colocar de lado e afastar as controvérsias e as antiquíssimas variedade de sentenças que até hoje impedem a unidade do nome cristão e, quanto às outras doutrinas, elaborar e propor uma certa lei comum de crer, em cuja profissão de fé todos se conhecam e se sintam como irmãos, pois, se as múltiplas igrejas e comunidades forem unidas por um certo pacto, existiria já a condição para que os progessos da impiedade fossem futuramente impedidos de modo sólido e frutuoso.

Estas são, Veneráveis Irmãos, as afirmações comuns.

Existem, contudo, os que estabelecem e concedem que o chamado Protestantismo, de modo bastante inconsiderado, deixou de lado certos capítulos da fé e alguns ritos do culto exterior, sem dúvida gratos e úteis, que, pelo contrário, a Igreja Romana ainda conserva.

Mas, de imediato, acrescentam que esta mesma Igreja também agiu mal, corrompendo a religião primitiva por algumas doutrinas alheias e repugnantes ao Evangelho, propondo acréscimos para serem cridos: enumeram como o principal entre estes o que versa sobre o Primado de Jurisdição atribuído a Pedro e a seus Sucessores na Sé Romana.

Entre os que assim pensam, embora não sejam muitos, estão os que indulgentemente atribuem ao Pontífice Romano um primado de honra ou uma certa jurisdição e poder que, entretanto, julgam procedente não do direito divino, mas de certo consenso dos fiéis. Chegam outros ao ponto de, por seus conselhos, que diríeis serem furta-cores, quererem presidir o próprio Pontífice.

E se é possível encontrar muitos acatólicos pregando à boca cheia a união fraterna em Jesus Cristo, entretanto não encontrareis a nenhum deles em cujos pensamentos esteja a submissão e a obediência ao Vigário de Jesus Cristo enquanto docente ou enquanto governante.

Afirmam eles que tratariam de bom grado com a Igreja Romana, mas com igualdade de direitos, isto é, iguais com um igual. Mas, se pudessem fazê-lo, não parece existir dúvida de que agiriam com a intenção de que, por um pacto que talvez se ajustasse, não fossem coagidos a afastarem-se daquelas opiniões que são a causa pela qual ainda vagueiem e errem fora do único aprisco de Cristo.

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10. A Igreja Católica não pode participar de semelhantes reuniões 

Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé, não pode, de modo algum, participar de suas assembléias e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo.

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11. A verdade revelada não admite transações   

Acaso poderemos tolerar – o que seria bastante iníquo-, que a verdade e, em especial a revelada, seja diminuída através de pactuações?

No caso presente, trata-se da verdade revelada que deve ser defendida.

Se Jesus Cristo enviou os Apóstolos a todo o mundo, a todos os povos que deviam ser instruídos na fé evangélica e, para que não errassem em nada, quis que, anteriormente, lhes fosse ensinada toda a verdade pelo Espírito Santo, acaso esta doutrina dos Apóstolos faltou inteiramente ou foi alguma vez perturbada na Igreja em que o próprio Deus está presente como regente e guardião?

Se o nosso Redentor promulgou claramente o seu Evangelho não apenas para os tempos apostólicos, mas também para pertencer às futuras épocas, o objeto da fé pode tornar-se de tal modo obscuro e incerto que hoje seja necessários tolerar opiniões pelo menos contrárias entre si?

Se isto fosse verdade, dever-se-ia igualmente dizer que o Espírito Santo que desceu sobre os Apóstolos, que a perpétua permanência dele na Igreja e também que a própria pregação de Cristo já perderam, desde muitos séculos, toda a eficácia e utilidade: afirmar isto é, sem dúvida, blasfemo.

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12. A Igreja Católica: depositária infalível da verdade

Quando o Filho unigênito de Deus ordenou a seus enviados que ensinassem a todos os povos, vinculou então todos os homens pelo dever de crer nas coisas que lhes fossem anunciadas pela “testemunha pré-ordenadas por Deus” (At. 10,41). Entretanto, um e outro preceito de Cristo, o de ensinar e o de crer na consecução da salvação eterna, que não podem deixar de ser cumpridos, não poderiam ser entendidos a não ser que a Igreja proponha de modo íntegro e claro a doutrina evangélica e que, ao propô-la, seja imune a qualquer perigo de errar.

Afastam-se igualmente do caminho os que julgam que o depósito da verdade existe realmente na terra, mas que é necessário um trabalho difícil, com tão longos estudos e disputas para encontrá-lo e possuí-lo que a vida dos homens seja apenas suficiente para isso, com se Deus benigníssimo tivesse falado pelos profetas e pelo seu Unigênito para que apenas uns poucos, e estes mesmos já avançados em idade, aprendessem perfeitamente as coisas que por eles revelou, e não para que preceituasse uma doutrina de fé e de costumes pela qual, em todo o decurso de sua vida mortal, o homem fosse regido.

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13. Sem fé, não há verdadeira caridade 

Estes pancristãos, que empenham o seu espírito na união das igrejas, pareceriam seguir, por certo, o nobilíssimo conselho da caridade que deve ser promovida entre os cristãos. Mas, dado que a caridade se desvia em detrimento da fé, o que pode ser feito?

Ninguém ignora por certo que o próprio João, o Apóstolo da Caridade, que em seu Evangelho parece ter manifestado os segredos do Coração Sacratíssimo de Jesus e que permanentemente costumavas inculcar à memória dos seus o mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros”, vetou inteiramente até mesmo manter relações com os que professavam de forma não íntegra e incorrupta a doutrina de Cristo: “Se alguém vem a vós e não traz esta doutrina, não o recebais em casa, nem digais a ele uma saudação” (2 Jo. 10).

Pelo que, como a caridade se apóia na fé íntegra e sincera como que em um fundamento, então é necessário unir os discípulos de Cristo pela unidade de fé como no vínculo principal.

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14. União Irracional  

Assim, de que vale excogitar no espírito uma certa Federação cristã, na qual ao ingressar ou então quando se tratar do objeto da fé, cada qual retenha a sua maneira de pensar e de sentir, embora ela seja repugnante às opiniões dos outros?

E de que modo pedirmos que participem de um só e mesmo Conselho homens que se distanciam por sentenças contrárias como, por exemplo, os que afirmam e os que negam ser a sagrada Tradição uma fonte genuína da Revelação Divina?

Como os que adoram a Cristo realmente presente na Santíssima Eucaristia, por aquela admirável conversão do pão e do vinho que se chama transubstanciação e os que afirmam que, somente pela fé ou por sinal e em virtude do Sacramento, aí está presente o Corpo de Cristo?

Como os que reconhecem nela a natureza do Sacrifício e a do Sacramento e os que dizem que ela não é senão a memória ou comemoração da Ceia do Senhor?

Como os que crêem ser bom e útil invocar súplice os Santos que reinam junto de Cristo – Maria, Mãe de Deus, em primeiro lugar – e tributar veneração às suas imagens e os que contestam que não pode ser admitido semelhante culto, por ser contrário à honra de Jesus Cristo, “único mediador de Deus e dos homens”? (1 Tim. 2,5).

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15. Princípio até o indiferentismo e o modernismo

Não sabemos, pois, como por essa grande divergência de opiniões seja defendida o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos. Sabemos, entretanto, gerar-se facilmente daí um degrau para a negligência com a religião ou o Indiferentismo e para o denominado Modernismo. os que foram miseravelmente infeccionados por ele defendem que não é absoluta, mas relativa a verdade revelada, isto é, de acordo com as múltiplas necessidades dos tempos e dos lugares e com as várias inclinações dos espíritos, uma vez que ela não estaria limitada por uma revelação imutável, mas seria tal que se adaptaria à vida dos homens.

Além disso, com relação às coisas que devem ser cridas, não é lícito utilizar-se, de modo algum, daquela discriminação que houveram por bem introduzir entre o que denominam capítulos fundamentais e capítulos não fundamentais da fé, como se uns devessem ser recebidos por todos, e, com relação aos outros, pudesse ser permitido o assentimento livre dos fiéis: a Virtude sobrenatural da fé possui como causa formal a autoridade de Deus revelante e não pode sofrer nenhuma distinção como esta.

Por isto, todos os que são verdadeiramente de Cristo consagram, por exemplo, ao mistério da Augusta Trindade a mesma fé que possuem em relação dogma da Mãe de Deus concebida sem a mancha original e não possuem igualmente uma fé diferente com relação à Encarnação do Senhor e ao magistério infalível do Pontífice romano, no sentido definido pelo Concílio Ecumênico Vaticano.

Nem se pode admitir que as verdade que a Igreja, através de solenes decretos, sancionou e definiu em outras épocas, pelo menos as proximamente superiores, não sejam, por este motivo, igualmente certas e nem devam ser igualmente acreditadas: acaso não foram todas elas reveladas por Deus?

Pois, o Magistério da Igreja, por decisão divina, foi constituído na terra para que as doutrinas reveladas não só permanecessem incólumes perpetuamente, mas também para que fossem levadas ao conhecimento dos homens de um modo mais fácil e seguro. E, embora seja ele diariamente exercido pelo Pontífice Romano e pelos Bispos em união com ele, todavia ele se completa pela tarefa de agir, no momento oportuno, definindo algo por meio de solenes ritos e decretos, se alguma vez for necessário opor-se aos erros ou impugnações dos hereges de um modo mais eficiente ou imprimir nas mentes dos fiéis capítulos da doutrina sagrada expostos de modo mais claro e pormenorizado.

Por este uso extraordinário do Magistério nenhuma invenção é introduzida e nenhuma coisa nova é acrescentada à soma de verdades que estando contidas, pelo menos implicitamente, no depósito da revelação, foram divinamente entregues à Igreja, mas são declaradas coisas que, para muitos talvez, ainda poderiam parecer obscuras, ou são estabelecidas coisas que devem ser mantidas sobre a fé e que antes eram por alguns colocados sob controvérsia.

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16. A única maneira de unir todos os cristãos

Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela.

Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos.

Pois, a mística Esposa de Cristo jamais se contaminou com o decurso dos séculos nem, em época alguma, poderá ser contaminada, como Cipriano o atesta: “A Esposa de Cristo não pode ser adulterada: ela é incorrupta e pudica. Ela conhece uma só casa e guarda com casto pudor a santidade de um só cubículo” (De Cath. Ecclessiae unitate, 6).

E o mesmo santo Mártir, com direito e com razão, grandemente se admirava de que pudesse alguém acreditar que “esta unidade que procede da firmeza de Deus pudesse cindir-se e ser quebrada na Igreja pelo divórcio de vontades em conflito” (ibidem).

Portanto, dado que o Corpo Místico de Cristo, isto é, a Igreja, é um só (1 Cor. 12,12), compacto e conexo (Ef. 4,15), à semelhança do seu corpo físico, seria inépcia e estultície afirmar alguém que ele pode constar de membros desunidos e separados: quem pois não estiver unido com ele, não é membro seu, nem está unido à cabeça, Cristo (Cfr. Ef. 5,30; 1,22).

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17. A obediência ao Romano Pontífice 

Mas, ninguém está nesta única Igreja de Cristo e ninguém nela permanece a não ser que, obedecendo, reconheça e acate o poder de Pedro e de seus sucessores legítimos.

Por acaso os antepassados dos enredados pelos erros de Fócio e dos reformadores não estiveram unidos ao Bispo de Roma, ao Pastor supremo das almas?

Ai! Os filhos afastaram-se da casa paterna; todavia ela não foi feita em pedaços e nem foi destruída por isso, uma vez que estava arrimada na perene proteção de Deus. Retornem, pois, eles ao Pai comum que, esquecido das injúrias antes gravadas a fogo contra a Sé Apostólica, recebê-los-á com máximo amor.

Pois se, como repetem freqüentemente, desejam unir-se Conosco e com os nossos, por que não se apressam em entrar na Igreja, “Mãe e Mestra de todos os fiéis de Cristo” (Conc. Later 4, c.5)?

Escutem a Lactâncio chamado amiúde: “Só… a Igreja Católica é a que retém o verdadeiro culto. Aqui está a fonte da verdade, este é o domicílio da Fé, este é o templo de Deus: se alguém não entrar por ele ou se alguém dele sair, está fora da esperança da vida e salvação. é necessário que ninguém se afague a si mesmo com a pertinácia nas disputas, pois trata-se da vida e da salvação que, a não ser que seja provida de um modo cauteloso e diligente, estará perdida e extinta” (Divin. Inst. 4,30, 11-12).

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18. Apelo às seitas dissidentes

Aproximem-se, portanto, os filhos dissidentes da Sé Apostólica, estabelecida nesta cidade que os Príncipes dos Apóstolos Pedro e Paulo consagraram com o seu sangue; daquela Sede, dizemos, que é “raiz e matriz da Igreja Católica” (S. Cypr., ep. 48 ad Cornelium, 3), não com o objetivo e a esperança de que “a Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade” (1 Tim 3,15) renuncie à integridade da fé e tolere os próprios erros deles, mas, pelo contrário, para que se entreguem a seu magistério e regime.

Oxalá auspiciosamente ocorra para Nós isto que não ocorreu ainda para tantos dos nossos muitos Predecessores, a fim de que possamos abraçar com espírito fraterno os filhos que nos é doloroso estejam de Nós separados por uma perniciosa dissensão.

Prece a Nosso Senhor e a Nossa Senhora. Oxalá Deus, Senhor nosso, que “quer salvar todos os homens e que eles venham ao conhecimento da verdade”(1 Tim. 2,4) nos ouça suplicando fortemente para que Ele se digne chamar à unidade da Igreja a todos os errantes.

Nesta questão que é, sem dúvida, gravíssima, utilizamos e queremos que seja utilizada como intercessora a Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe da graça divina, vencedora de todas as heresias e auxílio dos cristãos, para que Ela peça, para o quanto antes, a chegada daquele dia tão desejado por nós, em que todos os homens escutem a voz do seu Filho divino, “conservando a unidade de espírito em um vínculo de paz” (Ef. 4,3).

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19. Conclusão e Bênção Apostólica  

Compreendeis, Veneráveis Irmãos, o quanto desejamos isto e queremos que o saibam os nossos filhos, não só todos os do mundo católico, mas também os que de Nós dissentem. Estes, se implorarem em prece humilde as luzes do céu, por certo reconhecerão a única verdadeira Igreja de Jesus Cristo e, por fim, nEla tendo entrado, estarão unidos conosco em perfeita caridade.

No aguardo deste fato, como auspício dos dons de Deus e como testemunho de nossa paterna benevolência, concedemos muito cordialmente a vós, Veneráveis Irmãos, e a vosso clero e povo, a bênção apostólica.

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Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia seis de janeiro, no ano de 1928, festa da Epifania de Jesus Cristo, Nosso Senhor, sexto de nosso Pontificado.

Pio, Papa XI.

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 Motivos pelos quais devemos
socorrer as almas do Purgatório

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O que nos leva ao Purgatório?

A Tibieza e o Pecado Venial
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“A tibieza é o hábito não combatido do pecado venial, ainda que seja um só.”
 .
Santo Afonso
 .
A tibieza mina o espírito, sem que as pessoas percebam, nos enfraquece espiritualmente, amortece as energias da vontade e do esforço. Afrouxa a vida cristã. É um sistema de acomodações na vida espiritual do cristão. Há muitos sinais de tibieza, mas o que a caracteriza é o pecado venial deliberado e habitual. Tudo quanto ofende a Nosso Senhor nunca é leve ou coisa sem importância para uma alma fervorosa. O pecado venial é uma ofensa a Deus, e nele há:
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Três circunstâncias agravantes:
 .
1- Uma injúria a Majestade Divina.
2-Revolta contra a Autoridade de Deus
3-Ingratidão a Bondade Eterna.
 .
“O hábito dos pecados veniais tira dos nossos olhos 
a malícia do pecado grave, e em breve não receamos 
passar das faltas mais leves aos maiores pecados”.
São Gregório
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“Depois da morte, as menores penas que nos esperam é algo maior 
do que tudo que se possa padecer neste mundo. 
As menores faltas são punidas severamente”.
Santo Anselmo
 .
O que devemos fazer?
 .
Eis as palavras de Santo Agostinho:
 .
Devemos, pois socorrer os falecidos: Em razão do parentesco de sangue. Por gratidão, aos benfeitores nossos. Por justiça. Por caridade.
 .
O Santo Cura d’Ars, São João Batista Vianney, era um devoto fervoroso das almas do Purgatório. Pedira a Deus a graça de sofrer muito. Os sofrimentos do dia, oferecia-os pela conversão dos pecadores, e os da noite, pelas almas do Purgatório.
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“Se soubéssemos como é grande o poder das boas almas do Purgatório 
(em nosso favor) sobre o Coração de Jesus, 
e se soubéssemos também quantas graças 
poderíamos obter por intercessão delas,
é certo, não seriam tão esquecidas”. 
São João Batista Vianney
.
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Como podemos ajudá-las?
 .
Um dia, Santa Gertrudes rezava com fervor pelos falecidos, quando Nosso Senhor lhe fez ouvir estas palavras:
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“Eu sinto um prazer todo especial pela oração que me fazem pelos fiéis defuntos, principalmente quando vejo que a compaixão natural se junta a boa vontade de a tornar mais meritória. A oração dos fiéis desce a todo instante sobre as almas do Purgatório, como um orvalho refrigerante e benéfico, como um bálsamo salutar que adoça e acalma suas dores, e ainda as livra das suas prisões mais ou menos rapidamente conforme o fervor da devoção com que é feita”.
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E ainda noutra ocasião:
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“Muitíssimo grata me é a oração pelas almas do Purgatório, porque por ela tenho ocasião de libertá-las das suas penas e introduzí-las na glória eterna”.
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Oração
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Aplicando as indulgências recebidas na oração em sufrágio, para a liberdade das almas do Purgatório.
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Aqui vemos a importância das indulgências, através delas pagamos à Justiça Divina o que devemos, ou as oferecemos pelas almas para que elas possam assim pagar o devem à Justiça Divina, e se libertarem para entrar no gozo Celeste.
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Salmo De Profundis
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É um dos sete Salmos Penitenciais, e é uma oração indulgenciada.
Orações canônicas do Breviário ou Divino Ofício, Orações Oficiais da Igreja
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“A oração é a chave de ouro que abre o Céu”.
Santo Agostinho
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Sofrimento
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“Aliviemos as almas do Purgatório, aliviemo-las por tudo o que nos penaliza,
porque Deus tem cuidado em aplicar aos mortos os méritos dos vivos”.
São João Crisóstomo
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Podemos aceitar os nossos sofrimentos com amor e humildade, oferecendo-os em sacrifício pelas almas, afim de que elas sofram menos. É meritório para nós (santificação) e para as almas (alívio dos sofrimentos) oferecer a Nosso Senhor Jesus Cristo a cruz de cada dia pelos nossos falecidos. Quem não tem a sua cruz?
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É bom lembrar que, aceitando os sofrimentos da vida, em espírito de reparação, estaremos diminuindo as penas que poderemos experimentar se formos para o Purgatório. Não sabemos o nosso futuro.
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Ato Heróico
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Quando fazemos um ato de penitência e oração, como por exemplo rezar um Santo Terço de joelhos, há neste ato, três frutos diferentes: Um fruto meritório – que não o podemos perder, é o mérito pessoal de quem o pratica, nos dá um acréscimo de graça e de glória. Um valor satisfatório do ato – que é a penitência, o sacrifício, e este é para as almas, no Ato Heróico. Uma força impetratória – que é a da oração como oração.
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“É o ato que consiste em oferecer à Divina Magestade, em proveito das almas do Purgatório, todo o valor satisfatório das obras que fizemos durante a vida, e todos os sufrágios que forem aplicados pela nossa alma depois da morte”. Este ato há de ser feito em perpétuo, isto é, por toda a vida continuando após a morte, mas não obriga sob pena de pecado, a pessoa pode renunciá-lo, não comete pecado mortal nem venial. Pelo Ato Heróico não renunciamos o mérito de nossas boas obras, isto é o fruto meritório, que nos dá nesta vida um acréscimo da graça e da glória no Paraíso. Este merecimento é nosso e não o podemos ceder aos outros.
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Além disso, tudo o mais que fizermos, será em proveito das almas do Purgatório, desde que fazemos o Ato Heróico, todas as indulgências que lucramos são das almas. Só a indulgência plenária na hora da morte não é aplicável aos falecidos. O Ato Heróico não impede de rezar nas próprias intenções e pelos falecidos.
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O Ato Heróico não nos impede de utilizar a força impetratória da oração por alguma alma em particular, mas a entrega que se faz em favor das almas sofredoras neste ato, no qual cedemos o valor satisfatório, é feito, em geral, por todas as almas, e não em favor de uma ou outra em particular.
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É um engano pensar que se perde muito com o Ato Heróico, ao contrário, lucra-se mil vezes mais. Deus se deixa vencer em generosidade? Este Ato é cheio de mérito, é um ato perfeito, que nos faz esquecer de nós mesmos para favorecer nossos irmãos e praticar a caridade. “A caridade cobre uma multidão de pecados”, nos ensina a Palavra de Deus. Este heroísmo de caridade será recompensado com superabundância de graças em vida e de glória na eternidade.
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Para realizá-lo, não é prescrita uma oração em especial, pode ser feito espontaneamente.
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Extraído do blog Escravas de Maria

Extraído do blog – A grande guerra

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Seqüência (Dia de todos os fiéis defuntos)
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Dia de ira, aquele dia
que tudo em cinzas fará,
diz David e a Sibila.
Que temor há-de então ser
quando o Juiz vier
a julgar-nos com rigor!
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O som forte da trombeta
Entre os jazigos dos mortos
junto ao trono os levará.
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Todo o mundo há-de pasmar
quando a criatura se erguer
para responder ao Juiz.
Um livro será trazido,
no qual tudo está contido,
por onde há-de ser julgado o mundo.
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Quando o Juiz se sentar,
todo o oculto há-de aparecer.
Nada impune ficará.
Que hei-de eu então dizer?
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A quem hei-de recorrer,
se o justo não está seguro?
Rei tremendo em majestade,
que por favor nos salvais,
salvai-me por piedade!
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Recordai-Vos, bom Jesus,
que por mim do Céu descestes,
não me percais nesse dia.
Por me buscar, vos cansastes,
em me remir padecestes:
Não seja em vão tanta dor!
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Juiz, justo e de vingança,
dai-me o dom de Vossa graça,
antes que vá a juizo.
Gemo e choro, como réu,
sinto pejo do pecado;
suplico, perdoai-me.
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Vós, que absolvestes Maria
e ao ladrão não desprezastes,
também me destes esperança.
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Minhas preces não são dignas,
mas Vós que, sois bom, por clemência.
Não me abandoneis ao fogo.
Colocai-me entre as ovelhas,
separai-me então dos bodes,
dai-me lugar à direita.
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Confundidos os malditos,
entregues ao fogo eterno,
chamai-me com os escolhidos.
Peço humilde e suplicante,
de coração como a cinza,
havei cuidado de mim.
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Dia de lágrimas, esse dia,
em que o pó se erguerá,
o homem, para ser julgado.
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Perdoai-lhe, Senhor Deus,
Vós que sois bom, ó Jesus,
Dai-lhes um repouso eterno.
Amém
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(A voz do Filho do homem ressoa agora no tempo por entre os que morreram espiritualmente para os revocar à vida. Quando o tempo acabar, há-de ressoar a última vez para julgar os homens. Os que ouvirem a sua voz e cumprirem os seus mandamentos, ressuscitarão para a vida eterna.)
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(Missal quotidiano e vesperal – Dom Gaspar Lefebvre – 1951)

Extraído do blog A grande guerra

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(Padre Antônio Vieira)
Sermão de Maria Rosa Mística
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IExtollens vocem quaedam mulier de turba, dixit illi: Beatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti (1).
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Não é coisa nova no mundo, posto que lastimosa, que homens letrados e religiosos degeneremem hereges. Tais foram antigamente Pelágio, e modernamente Lutero: um e outro letrados de fama, um e outro religiosos de profissão, e ambos heresiarcas impiíssimos. E se das escolas e claustros da Igreja Católica saem monstros tão horrendos, não é maravilha que na Sinagoga judaica, e na história do presente Evangelho os vejamos semelhantes. Os escribas eram os letrados da lei, os fariseus eram os religiosos daquele tempo, e uns e outros se declararam tão blasfemamente heréticos no milagre do demônio mudo, que em uma só proposição negaram a Cristo a divindade, enquanto Deus, e a santidade, enquanto homem. Disseram e ensinaram publicamente aos que se admiravam do milagre, que era falso e aparente, e que Cristo lançava os demônios dos corpos com poder do príncipe dos demônios: In Beelzebub principe daemoniorum ejicit daemonia (2). Em dizerem que obrava com poder alheio, negavam-Lhe a onipotência; e em julgarem que esse poder era recebido do demônio, negavam-Lhe a santidade: e a quem? Àquele mesmo Senhor, a quem os mesmos demônios confessavam por Deus e por santoScio qui sis, Sanctus Dei (3). Convictos, porém, neste famoso ato da fé, e saindo escribas e fariseus todos com mordaças na boca, emudecidos pelas razões com que Cristo, juntamente mestre e juiz, lhes confutou e condenou as blasfêmias, levantou a voz uma mulher, aclamando a vitória da fé, e dando todo o louvor à Mãe de tão glorioso FilhoBeatus venter qui te portavit et ubera quae suxisti.
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Para expositor e intérprete deste insigne texto, e seus mistérios, elegeu a Igreja, entre todos os doutores sagrados ao Venerável Beda, o qual diz duas coisas notáveis. A primeira, que esta mulher do Evangelho foi figura da Igreja Católica, que nela se representava: Cujus haec mulier typum gessit. – E a experiência tem mostrado a verdade e propriedade desta exposição, pois, tomando a Igreja da boca da mesma mulher estas mesmas palavras, não só as autoriza como suas, mas as repete, canta e celebra como divinas, em todas as solenidades da Virgem, Senhora nossa, e com particular eleição as aplica ao dia do seu Rosário. A segunda coisa, e mais notável ainda, que diz o mesmo Beda, é que nas mesmas palavras, nas quais se contem os primeiros mistérios do Rosário somente – como são os da infância de Cristo: Venter qui te portavit et ubera quae suxisti – não só estão refutadas e convencidas as heresias e blasfêmias dos escribas e fariseus – que eram os hereges presentes – senão também, e com a mesma evidência, as de todos os hereges futurosScribis et pharisaeis, Dominum tentantibus et blasphe-mantibus, tanta ejus incarnationem prae omnibus sinceritate cognoscit, tanta fiducia confitetur, ut et praesentium procerum calumniam et futurorum confundat haereticorum perfidiam.
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Isto suposto, que é tudo o que até agora nos tem ensinado a Igreja, eu, insistindo na verdade católica da mesma doutrina, e não me apartando um ponto da autoridade dela que é na terra a do céu – o que determino dizer hoje é muito mais. Se a verdade do mistério da Encarnação, que é um só dos quinze do Rosário, bastou para refutar os hereges de Judéia, e os que depois deles impugnaram o mesmo mistério, o que acrescento e digo de novo é que todos os mistérios e orações de que se compõe o Rosário, juntos não só refutam e convencem as heresias de Judéia, senão as de todo o mundo, nem só as dos escribas e fariseus, senão as de todos os heresiarcas e seus sequazes, nem só as daquele tempo e do futuro, senão as do futuro, as do presente e as do passado. De sorte que, examinadas, não em comum somente, senão também em particular, todas as heresias, todas as blasfêmias, todos os erros de todas as seitas, de todas as idades, de todas as terras, de todas as nações, e de todos os infiéis do mundo, todas no Rosário estão detestadas, todas no Rosário condenadas, todas no Rosário, confundidas, e todas no Rosário anatematizadas.
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Isto é o que hei de pregar hoje. E agora, Senhor, me dou eu o parabém de que Vossa infinita Majestade, patente nesse trono visível, se dignasse de divinizar com sua real presença a solenidade deste grande dia, e agora reconheço a justa razão e correspondência com que o mistério por antonomásia da fé desce do céu a honrar os do Rosário. Não podia faltar a maior e melhor parte a este todo, de que o diviníssimo Sacramento também é parte. Nesse diviníssimo Sacramento adora a nossa fé o maior mistério dela: no Rosário reconhece e confessa todos. Nesse diviníssimo Sacramento condena a quantos hereges o negam: no Rosário a nenhum perdoa, nem ainda aos que se não atreveram a negar. No Sacramento detestamos uma heresia nova: no Rosário as novas e as antigas. No Sacramento, enfim, uma heresia, e no Rosário todas as heresias. Sendo, pois, o Rosário a maior e mais universal protestação da fé, e o mistério da fé a fonte de toda a graça, não nos poderá faltar com a graça a mesma Senhora, de quem a mesma fonte teve seu nascimentoAve Maria.
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II. Uma das mais notáveis prerrogativas, ou a mais notável e a maior, que a Igreja Católica reconhece e celebra na Virgem Santíssima, Senhora nossa, e de que Lhe dá o parabém, é aquela famosa antífona: Gaude, Maria Virgo, cunctas haereses sola interemisti in universo mundo. – Quer dizer: Alegrai-vos, Virgem Maria, porque Vós só degolastes em todo o mundo todas as heresias. – O louvor que encerram estas palavras não pode ser maior, mas a dificuldade delas também é grande. Primeiramente, S. Pedro pelejou contra Simão Mago, que foi o primeiro heresiarca da Igreja, e o derrubou das nuvens, e, com os pés quebrados, o prostrou aos seus nos olhos de toda Roma. S. João Evangelista pelejou contra Ébion e Cerinto, contra os quais principalmente escreveu o Evangelho. S. Paulo, não só a um ou a poucos hereges, mas a todos os de seu tempo confundiu, aniquilou e fez em cinza, com tantos raios quantas foram as suas epístolas. Depois dos apóstolos estas foram as batalhas e as vitórias dos fortíssimos antigontistas de todos os heresiarcas, os Inácios, os Policarpos, os Irineus, os Justinos, os Lactâncios, os Epifânios, os Atanásios, os Jerônimos, os Agostinhos.
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Como diz logo e canta a Igreja que a que degolou as heresias foi a Virgem, Senhora nossa, e Ela só: sola? Mais. Estas heresias não foram todas, nem de todo o mundo, porque todas nasceram na Grécia e na Itália, donde se estenderam por algumas províncias da África e da Europa, e ainda não tinham saído do inferno os Erasmos, os Luteros, os Calvinos, e tantos outros monstros, em cujas heresias está ardendo hoje a França, a Holanda, a Inglaterra, a Alemanha, a Dinamarca e a Suécia, e todo o Setentrião enregelado e duroPois, se ainda vivem, e crescem, e nascem no mundo tantas heresias, como as degolou a Virgem Maria, e as matou todasCunctas haereses interemisti in universo mundo?
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Trataram esta questão dois famosos autores do nosso século, entre os teólogos, Soares (4), e entre os escriturários, A Lápide. E que é o que dizem? O padre Soares responde que degolou a Senhora todas as heresias, porque foi Mãe de Cristo, que é a luz que alumia a todos os homens, e porque depois de Cristo foi mestra da fé e dos apóstolos, e porque é singular protetora de todos os que A defendem. Mas esta resposta, posto que verdadeira e sólida no que diz, bem se vê que não satisfaz inteiramente à dificuldade proposta, nem enche os vazios de tamanha prerrogativa. O padre A Lápide mais a confirma com a Escritura do que dá a razão dela. Diz que aqui se cumpriu a sentença fulminada por Deus contra a serpente, de que uma mulher lhe quebraria a cabeça, e que esta mulher é a Virgem Maria, a serpente o demônio, e a cabeça da serpente todas as heresias: Beata Maria contrivit serpentem, quia illa fuit semper plena et gloriosa victrix diaboli, omnesque haereses – quae caput sunt serpentis – in universo mundo contrivit, ut canit Ecclesia (5).
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Que na cabeça da serpente se entendam todas as heresias, bem dito está, porque todas saíram daquela astuta, inimiga e venenosa cabeça. Assim o afirmam Santo Agostinho, S. João Crisóstomo, Santo Atanásio e, primeiro que todos, Santo Irineu (6), o qual acrescenta que todos os heresiarcas tiveram demônios familiares, que eram os seus mestres, e lhes ensinavam os erros que haviam de semear. E esta verdade é tão certa, que os mesmos heresiarcas e os mesmos demônios a confessam. Lutero, o maior heresiarca do século passado, em o livro que intitulou De Massa Angulariconfessa ou se gaba de que ele e o demônio eram tão amigos e tão familiares na conversação e na mesa, que tinham comido juntos mais de meio alqueire de salDiabolum, et se inter se mutuo familiariter nosse, et plus uno salis modio simul comedisse (7). – E dos demônios refere Cassiano, na colação sétima, que em sua presença e na de outros religiosos confessara pública e declaradamente um demônio que a heresia de Árrio e de Eunômio ele lha inspirara: Audivimus apertissime confitentem se inspirasse haeresim Arrii et Eunomii (8).
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Finalmente, sem sair do caso em que estamos, dele consta quem foi o primeiro heresiarca, e quais os primeiros hereges. O primeiro heresiarca foi o demônio, os primeiros hereges foram Adão e EvaO demônio foi o primeiro heresiarca, porque, tendo Deus dito a Adão e Eva que no dia em que comessem do fruto vedado morreriam: In quocumque die comederis, morte morieris (9) – contra esta proposição, que por ser de Deus era de fé, o demônio pronunciou e ensinou a contraditória, em que consiste a heresia, dizendo que de nenhum modo morreriam: Nequaquam morte moriemini (10). – E Adão e Eva foram os primeiros hereges, porque ambos não só duvidaram da palavra divina – o que bastava – mas ambos creram mais ao demônio que a Deus, ambos perderam a fé, como provaSanto Agostinho, e ambos foram réus e cúmplices no primeiro crime de heresia (11).
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E como a sentença fulminada contra a serpente assentava sobre estas culpas, e tanto em castigo da presente heresia – de que fora o primeiro dogmatista – como em presságio de todas as futuras, que na sua cabeça se haviam de maquinar, e dela haviam de sair; bem se segue que a mulher, que lhe havia de quebrar a mesma cabeça, era a que havia de destruir todas as heresias. Mas, ainda que esta exposição do texto declare o verdadeiro sentido da profecia, não concorda, porém, com o cumprimento dela, nem com o que canta a Igreja, porque a profecia diz conteret, e a Igreja diz interemisti: a profecia fala do futuro, e que se havia de cumprir, e a Igreja fala do passado, e que de presente já está cumprido. E se já está cumprido que a Virgem Maria, e só Ela, degolou todas as heresias do mundo: Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo – como se verifica esta verdade tão decantada da Igreja, e quando ou de que modo obrou a Virgem, Senhora nossa, esta tão universal e tão prodigiosa façanha?
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Respondo que assim é como o afirma a Igreja Católica, cuja verdade não pode faltar; e que o modo ou instrumento com que a Virgem Maria degolou todas as heresias foi o Rosário. E porque o Rosário é somente Seu, Ela foi a que as degolou quando o instituiu:Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo. – Quando a Senhora instituiu o Seu Rosário, e o seu primeiro pregador, o patriarca S. Domingos, o começou a publicar pelo mundo, referindo o papa Gregório IX os efeitos maravilhosos da sua pregação, diz na bula da canonização do mesmo santo estas grandes e ponderosas palavras: Dominico sagitante delicias carnis, et fulgurante mentes lapideas impiorum, omnis haereticorum secta contremuit (12) – como se a pregação de Domingos fosse um arco que despedisse setas contra os corações de carne, e como se a sua voz fosse um trovão do céu que fulminasse raios contra os entendimentos de pedra, assim fez tremer as seitas de todos os hereges:Omnis haereticorum secta contremuit. – Mas, se as seitas dos hereges tremeram, também a Igreja ocidental tinha tremido, diz o Beato Alano de Rupe, vendo a força e progressos com que as mesmas heresias se iam estendendo e abrasando a Europa: Hic vero intremuit Ecclesia Occidentalis, talium adhuc inexperta malorum. – Não houve meio de que a Igreja não intentasse para apagar ou atalhar este incêndio, porém, todos debalde: Non arma, non doctrina deerant, deerat oratioNão faltava a doutrina sã dos teólogos, não faltavam também as armas dos príncipes católicos, mas faltava a oração. – Trouxe-a, finalmente, do céu a Rainha dos anjos, ensinando a do seu Rosário, e tanto que o Rosário se introduziu no mundo, cresceu a oração e desfaleceu a heresiaPraedicandi ac orandi Rosarium, ut in usum venit, crevit oratio, decrevit haeresi (13).
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Só na Lombardia converteu S. Domingos, por meio do Rosário, mais de cem mil hereges albigenses. Mas, que têm que ver – torna agora a mesma dúvida, não já absolutamente, senão sobre o Rosário – que têm que ver os albigenses com todos os hereges? E que proporção tem a Lombardia com todo o mundo? De que modo, logo, se pode ou há de entender que por meio do Rosário degolou e matou a Virgem, Senhora nossa, todas as heresias do mundo? Digo que o Rosário, própria e verdadeiramente, mata todas as heresias, pelo modo próprio e verdadeiro com que a heresia mata a fé, e a fé mata a heresiaDe que modo se matam entre si a heresia e a fé? A fé e a heresia são atos do entendimento, com que cremos ou negamos o mistério e verdade que se nos propõe; e nesta contrariedade ou guerra dos entendimentos é que a fé pode matar a heresia, ou a heresia pode matar a fé. Se a heresia nega o que crê e confessa a fé, mata a heresia a fé; se a fé crê e confessa o que nega a heresia, mata a fé a heresia; e deste modo, por meio do seu Rosário, matou a Virgem, Senhora nossa, todas as heresias, porque tudo o que todas as heresias do mundo negam é o que se crê e confessa no Rosário. De sorte que, para o Rosário matar todas as heresias, não é necessário que converta e convença os hereges, e mate as heresias neles, mas basta que as deteste e as mate em si mesmo.
Excelente e admirável prova, e, quanto se podia desejar, adequada. Antes de Cristo vir ao mundo, havia entre os judeus e os gentios a mesma oposição e contrariedade que hoje há entre os católicos e hereges; e porque Cristo, Senhor nosso – por isso chamado Príncipe da Paz – quis por meio da sua fé acabar esta guerra, e fazer de ambos os povos, judaico e gentílico, um só povo: Qui fecit utraque unum (14) – o mesmo S. Paulo, de quem são estas palavras, diz que Cristo matou aquelas inimizades em si mesmo: Interficiens inimicitias in semetipso, ut duos condat in unum, et reconciliet ambos (15). – Mas quando fez Cristo esta união e esta reconciliação dos dois povos inimigos, e quando matou estas inimizades? Matou-as nos últimos anos de sua vida, quando instituiu a lei nova, na qual não há distinção de judeu e gentio: Non est distinctio Judaei er Graeci(16). – Agora entra a grande dúvida. Pois, se Cristo há mil e seiscentos anos que matou as inimizades que havia entre os judeus e gentios, como perseveram ainda inimigos entre si, e por mais que os gentios convertidos querem converter também os judeus, eles, contudo, perseveram obstinadamente na mesma inimizade? Porque Cristo não matou as inimizades neles: matou-as em si mesmo: Interficiens inimicitias in semetipso. – O mesmo fez a Virgem, Senhora nossa, por meio do seu Rosário. Ainda que muitos hereges em todas as partes do mundo se conservam obstinadamente hereges, a Virgem Maria por meio do Seu Rosário matou todas as heresias em todo o mundoCunctas haereses sola interemisti in universo mundo – porque o Rosário, ainda que não mate as heresias nos hereges que se não querem converter, mata-as todas em si mesmo, porque em si mesmo detesta as heresias e os erros de todos.
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III. Dai-me agora particular atenção, e assim na parte mental do Rosário, que são os quinze mistérios, como na parte vocal, que são as duas orações de que se compõe, vede como nele detestamos todas as heresias do mundo.
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Primeiramente no número e fundamento dos quinze mistérios, é muito digno de reparo que os primeiros treze sejam todos tirados do Evangelho, e os dois últimos mistérios, que são os da Assunção da Virgem, Senhora nossa, e os de Sua Coroação no trono da glória, não constam dos Evangelhos, nem de outra Escritura Sagrada, senão somente por tradição dos apóstolos e da Igreja. Pois, se todos quinze se puderam inteirar de outros mistérios que referem os evangelistas, por que mete junta e igualmente com eles o Rosário os que só cremos por tradição apostólica e eclesiástica? Porque assim era necessário para a inteira e completa protestação da fé e detestação das heresias. Os hereges modernos negam a fé das tradições, e dizem que só se há de crer o que se lê nas Escrituras Sagradas:Neque alia doctrina in Ecclesia tradi et audiri debet, quam purum verbum Dei, hoc est, Sancta Scriptura – diz Lutero, tão inchado como ignorante (17). – Vem cá, herege sobre apóstata: na lei da natureza houve fé? Sim. E houve alguma Escritura? Nenhuma. Na lei escrita houve muitas Escrituras? Muitas. E criam-se também as tradições? Também, que a mesma lei o mandava assim. Na lei da graça houve sempre fé desde seu princípio? Sempre. E houve sempre Escrituras? Não, porque o Evangelho de S. Mateus, que foi o primeiro, foi escrito oito anos depois da Ascensão de Cristo, e o de S. João, que foi o último, sessenta e seis anos depois. Pois, se as tradições em todas as leis tiveram autoridade de fé, como és tu tão sem fé e sem lei que as negas? E se queres ler isto mesmo nas Escrituras Sagradas, lê a S. Paulo, onde diz:Accepi a Domino quod et tradidi vobis (18); e outra vez, onde diz: Laudo vos, quod sicut tradidi vobis, praecepta mea tenetis (19); e terceira vez, onde expressamente declara uma e outra coisa. Tenete traditiones, quas didicistis, sive per sermonem, sive per epistolam nostram (20). E como as verdades que cremos tanta autoridade têm pela Escritura como pela tradição, por isso os mistérios do Rosário se compuseram de umas e outras, condenando nesta católica composição a ímpia doutrina de Lutero e dos seus quatro evangelistas, tão falsos como ele, Calvino, Brêncio, Kemnício, e Hamelmano (21).
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Vindo à série dos mistérios, no primeiro, que é o da Encarnação, confessa o Rosário, com a fé católica, que o Filho de Deus encarnou e tomou a nossa carne por verdadeira e real união da subsistência do Verbo à Humanidade, ficando Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem com duas naturezas, não confusas, senão distintas: uma inteiramente divina, e outra perfeitamente humana, e não em duas, senão em uma só pessoa. E com a fé e protestação deste mistériodegola o Rosário cinco famosas heresias. Aprimeira, de Valentino, de Cedron, de Proclo, e de todos os maniqueus e priscilianistas, os quais diziam que Cristo não era verdadeiro homem como nós, senão fantástico e aparente, e não nascido na terra, senão descido do céu (22). A segunda, de Cerinto, de Ébion, de Carpocrates, de Teodoro, Artemon, Paulo Samosateno, Fotino, os quais concediam que Cristo era homem, mas negavam que fosse Deus; e este erro é também dos judeus e dos maometanos. A terceira, de Nestório, de Elipando, de Bonoso, e outros, os quais confessavam em Cristo as duas naturezas, divina e humana, mas não em uma só pessoa, senão em duas, e essas não unidas substancialmente entre si, mas acidentalmente, e só por graça. A quarta, de Eutiques, Dióscoro, Filopono, os quais diziam que de tal maneira Deus se fizera homem, que a humanidade, por verdadeira transformação, se convertera na divindade, ficando o que fora homem, não já homem, senão Deus. A quinta, de Polêmio, a quem seguiram os jacobitas, e de Severo, a quem seguiram os acéfalos, os quais da natureza humana e da divina faziam em Cristo uma terceira substância, assim como dos elementos simples se compõem os corpos mistos. Deixo os erros de Apolinar, e de outros na mesma matéria, dos quais, por serem tantos, se convence também a sua mesma falsidade, porque para acertar há um só caminho, e para errar muitos.
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No segundo mistério, que foi o da Visitação da Senhora a Santa Isabel, e santificação do Batista, temos antes de sua degolação a de duas grandes heresias antigas e modernas. A santificação do Batista caiu sobre o pecado original, no qual incorreram todos os filhos de Adão, como em primeiro pai e cabeça universal do gênero humano. Ele pecou, e nele todos, como expressamente diz S. Paulo: In quo omnes peccaverunt (23). – E com ser este texto tão claro, Pelágio e Celéstio negaram obstinadamente haver pecado original. O mesmo erro continuaram Pedro Abailardo primeiro, depois os hereges albigenses, e quase em nossos dias o ressuscitaram Erasmo, Fabro, Zuínglio, e outros monstros com nome de cristãos, não reparando, como notou Santo Agostinho contra Juliano, que quem nega o pecado original, derroca o primeiro fundamento do Cristianismo, e quer tirar do mundo a Cristo (24). Por isso o mesmo Cristo, que reservou o resto da Sua doutrina e milagres para depois dos trinta anos, no mesmo instante em que foi concebido, partiu logo a livrar do pecado original a um homem que ainda não era nascido. E por que foi este homem, ou este menino, mais um filho de Isabel e Zacarias que outro? Para condenar com o mesmo ato, e desfazer a segunda heresia.
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Buccero, Calvino e Bolingero de tal modo admitem o pecado original que excetuam dele os filhos dos fiéis, e dizem que, ainda que morram sem batismo, se salvam porque pela fé de seus pais nascem santos (25). E para Cristo convencer também, e condenar esta heresia, aquele menino que escolheu entre todos para livrar do pecado original, não só quis que fosse filho de pais fiéis, mas tão fiéis e tão santos ambos como Zacarias e Isabel. E estas são as duas heresias que de um golpe degola o Rosário no segundo mistério.
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Contra o terceiro – que é o do nascimento de Cristo – se levantaram outras quatro (26): uma pertencente ao Filho, e três à Mãe. Citiano, Terbinto, Manes e os hereges chamados sampseus, ussenos, e helcesseus, não só negaram haver nascido o Filho de Deus da Virgem Maria, mas disseram que em Adão se vestira exteriormente da nossa carne, da qual logo se despira, e a vestia somente quando havia de falar aos patriarcas, e que nela aparecera depois quando veio ensinar e remir o mundo, dando cor a este seu fingimento com as palavras de S. Paulo: Et habitu inventus ut homo (27). – Pode haver fábula mais quimérica e mais ridícula? Mas tão cegos e tão estólidos como isto são os hereges. Os que crêem e confessam a Cristo como nascido de Maria Santíssima, escurecem e corrompem a metade desta verdade com três blasfêmias, de que estremecem os ouvidos católicos. – Nós, Virgem e Mãe sempre puríssima, confessamos que fostes Virgem antes do parto, Virgem no parto, e Virgem depois do parto. E a primeira destas singulares prerrogativas negaram os ebionitas, e teodotianos; a segunda, Gualtero, Buccero, Molineu, e outros protestantes; a terceira, Helvídio, Auxêncio, Joviniano, e os hereges antidicomarianistas, merecedores todos de que o fogo da sarça, cuja perpétua verdura se conservou inviolável entre as chamas, os abrasasse e consumisse (28). Mas nós, Virgem das Virgens e Mãe admirável, já desde então na mesma sarça verde antes do fogo, no fogo verde, e verde depois do fogo reconhecemos os três estados maravilhosos de Vossa virginal pureza, cantando todos com a Igreja: Rubum, quem viderat Moyses incombustum, conservatam agnovimus tuam laudabilem virginitatem (29) – e esta é a espada, não de dois, mas de três fios, com que o Rosário degola estas três heresias.
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Esta mesma pureza da Mãe de Deus a isentou da lei da Purificação – que é o quarto mistério – como também e muito mais a seu Filho, por ser o supremo legislador, e de nenhum modo sujeito a ela. Mas esta imunidade de ambos, excetuada claramente na mesma lei de Moisés, negaram depois todos os hereges que então havia em Judéia, fariseus, saduceus, desiteus, hemerobatistas, herodianos (30), cumprindo-se neles a profecia de Simeão pregada no mesmo dia e no mesmo templo: Eccepositus est hic in ruinam, et in resurrectionem multorum in Israel, et in signum cui contradicetur (31). Foi Cristo para Israel a ruína dos que O negaram, e a exaltação dos que O creram: In ruinam, et in resurrectionem multorum in Israel. – E para todos os outros foi um alvo de contradição: In signum cui contradicetur – porque todos os que erram na fé atiram contra Ele as setas de suas heresias, e, pelo contrário, todos os que a crêem e professam, como nós no Rosário, contradizendo e refutando essas mesmas heresias, lhes quebramos as setas.
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E para que isto se veja com maior clareza, sem sair do mesmo Templo, passemos ao quinto mistério. Achou a Senhora a Seu Filho depois de perdido, assentado entre os doutores, admirados eles de tanta sabedoria em tão tenra idade, e das respostas que dava a todas as questões que lhe propunham. E porque o evangelista diz que também ouvia e perguntava:Audientem illos, et interrogantem (32) – como o ouvir é mais próprio de quem aprende, e o perguntar de quem duvida ou ignora, daqui tomaram ocasião muitos hereges para crer e ensinar que em Cristo podia haver ignorância e erro. Assim o creram antigamente os gnósticos, os temistianos, os agnoítas (33), e assim o dogmatizaram em nossos tempos Lutero e Calvino, e o discípulo destes, e mestre de muitos outros, Beza (34). Tão longe esteve, porém, da baixeza de semelhante pensamento Apolinar; que, sendo também herege, errou tanto por alto, que negando à alma de Cristo o entendimento humano, pôs em seu lugar divino. Mas o que ensina a fé católica neste ponto, é que assim como em Cristo há duas naturezas, assim tem dois entendimentos, um divino, outro humano. E a ciência deste entendimento humano foi tão perfeita e consumada, não depois dos doze anos, senão desde o instante de Sua conceição, que tudo soube com evidência, nenhuma coisa ignorou, em nenhuma pôde errar. E isto é o que em todos os mistérios gozosos, desde o primeiro até o último, confessa e protesta o Rosário.
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IV. Passando aos mistérios dolorosos não só discreta, mas verdadeiramente disse Tertuliano que a nossa fé sempre está crucificada entre duas heresias, como Cristo entre dois ladrões (35). Porque uns a impugnam de uma parte, e outros da outra, não unidos na mesma sentença, ou no mesmo erro, senão contrários entre si. Por isso Santo Ambrósio e Santo Agostinho (36) compararam os hereges às raposas de Sansão, as quais ele atou, não pelas cabeças, senão pelas costas, voltadas umas contra as outras: Caudasque earum junxit ad caudas, et faces ligavit in médio (37). Para queimarem a seara unidos, mas tirando cada um para sua parte, e essas contrárias.
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primeiro mistério doloroso, e da Paixão de Cristo, foi o do Horto: e que dizem os hereges? Uns dizem que não padeceu o Senhor as penas e aflições que referem os evangelistas, outros dizem que as padeceu muito maiores e inauditas. Tão conformes contra a fé, como negarem todos o Evangelho, e tão contrários entre si, quanto vai de padecer Cristo a não padecer; e não só encontrados no que dizem, senão também nos fundamentos falsos por que o dizem. Menandro e Saturnino, e Apeles, disseram que não padecera Cristo, porque não tomara verdadeiro corpo, senão fantástico (38); Serveto, Menon e os anabatistas, porque era de matéria celestial e divina. Juliana Alicarnasseu, Caiano, Teodoro, e outros (39), posto que concedem que a carne de Cristo era como a nossa em tudo o mais, negam contudo que padecesse ou pudesse padecer; porque era impassível. Em suma, que todos estes hereges, por tão diversos caminhos, vêm a concordar em que as penas de Cristo não foram verdadeiras, por mais que o Evangelho de Isaías esteja clamando: Vere languores nostros ipse tulit (40) – e o de S. Lucas afirme que Lhe fizeram suar sangue.
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Isto é o que disseram os hereges que não creram aos evangelistas. E os que os creram contentaram-se com isso? Não foram eles hereges, se se acomodaram com a verdade. Foi tão blasfema a língua, e tão sacrílega a pena do impiíssimo Calvino, que se atreveu a pregar e a escrever que, desde o Horto até expirar na Cruz, padecera Cristo as penas do inferno, e que assim fora necessário, como Redentor, para satisfazer pena por pena e inferno por inferno, a mesma pena e inferno a que estavam condenados aqueles a quem remia (41). O mesmo seguiram Melancton e Brêncio, não entendendo a soberba ignorantíssima destes blasfemos precitos que bastava a menor gota de suor de Cristo no mesmo Horto, ainda que não fora de sangue, para pagar e apagar mil infernos.
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Acrescenta o heresiarca, que destes tormentos se quis livrar o Senhor quando disse: Si possibile est, transeat a me calix iste (42) – e Cristo acrescentou: Non mea voluntas, sed tua fiat (43) – para deixar confutada outra grande heresia. Macário Antioqueno, Cipro Alexandrino, Sérgio Constantinopolitano, e todos os que pelo mesmo erro se chamaram monotelitas, posto que reconheciam em Cristo duas naturezas distintas, não só admitiam nelas mais que uma só vontade, que era a divina mas, para que cressem e entendessem todas que assim como as naturezas eram duas, assim eram também duas as vontades, por isso distinguiu tão claramente o Senhor a vontade humana da divina, dizendo: – Não se faça a minha vontade, senão a Vossa. – E toda esta é a fé que confessa, e todas estas as heresias que degola o Rosário na meditação do primeiro mistério doloroso.
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No segundo – que é o dos açoites à coluna – padeceu Cristo atado a ela, não já as dores da própria e interior apreensão, senão as da violência e crueldade atroz de Seus inimigos. E foi tal o deslumbramento da heresia, assim neste como nos outros passos da Paixão, que muitos hereges tiveram para si que a divindade de Cristo, imortal por natureza, e impassível, fora a que nele morrera e padecera. Assim o escreveu no século passado tão impudente como ignorantemente Lutero, ressuscitando as antiqüíssimas heresias de Eutiques, Dióscoro, Sérgio, Pirro e Paulo, e de todos os eutiquianos, divididos em tantas blasfêmias como seitas (44). Não atinava a filosofia cega destes presumidos idiotas, como era possível que sendo Cristo Deus, e padecendo Cristo, não padecesse a mesma divindade, pela qual é Deus! Padeceu Deus, e morreu Deus, são proposições católicas e de fé; logo se Deus morreu e padeceu, como não morreu nem padeceu a divindade? A verdadeira teologia o declara facilmente com a que nela se chama comunicação dos idiomas. Assim como do mesmo homem se diz com verdade que vê e ouve e com a mesma verdade que entende e ama, e não se segue por isso que entende e ama pelos sentidos do corpo, nem que vê e ouve pelas potências da alma, assim de Cristo, que é Deus e homem, se diz verdadeiramente que padeceu e morreu, mas nem por isso se segue que padeceu pela divindade, que é imortal e impassível, senão pela humanidade, que é passível e mortal. E isto é o que professa o Rosário, e com que facilmente degola essas blasfêmias e heresias.
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Em Cristo coroado de espinhos – que é o terceiro mistério – e adorado por escárnio com a injuriosa saudação de Ave Rex Judaeorum (45) – três foram as heresias que então e depois lhe negaram este glorioso e verdadeiro título, até por Pilatos, que o condenou, confessado. Osprimeiros dogmatistas delas foram os escribas e fariseus, e os príncipes dos sacerdotes de Jerusalém, quando com as vozes de todo o povo clamaram: Non habemus regem, nisi Caesarem (46) – sendo este César Tibério. Os segundos foram os herodianos, chamados assim porque, tendo cessado o cetro de Judá, por adularem a Herodes o reconheceram por Messias e adoraram por rei dos judeus (47). Os terceiros, não só da mesma nação, senão também romanos, foram os que, aplicando as profecias de Cristo ao imperador Vespasiano, o tiveram e aclamaram por tal, entre os quais seguiram e celebraram o mesmo erro Cornélio Tácito e Suetônio, e, o que é mais, Josefo, que então vivia, com ser judeu, cegueira e infâmia abominável se assim o cria, e maior ainda se o escreveu sem o crer. Tão vil é a dependência e a lisonja!
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Coroado, pois, de espinhos o supremo Senhor e verdadeiro Rei, não só dos judeus, mas de todos os homens e anjos – como confessa a nossa fé no terceiro mistério do Rosário – o quarto, em que levou a cruz às costas, e o quinto, em que foi pregado e morto nela, de tal sorte os envolveu, e ajuntou a heresia, que nem nós referindo-a os podemos separar. Basilides, antiqüíssimo heresiarca, ensinou à sua escola que o crucificado e morto no Monte Calvário não fora Cristo, senão Simão Cirineu, o mesmo que lhe ajudou a levar a Cruz. Assim o escrevem Santo Irineu, Tertuliano, Eusébio Cesariense, Santo Epifânio e Santo Agostinho. E, pois, tão grandes padres da Igreja julgaram que não ficasse em silêncio um tão fabuloso fingimento, eu o quero referir pelas palavras de seu mesmo autor, que tiradas de Santo Epifânio, são estas: Illum, in eo quod portabat crucem, transformavit in suam speciem, et seipsum in Simonem, et prp seipso tradidit Simonem, ut crucifigeretur. Cum autem crucifigeretur, stabat ex opposito invisibilis Jesus, diridens eos, qui Simonem crucifigebant: ipse vero discessit ad caelestia(48). Quer dizer que, quando Simão levava a cruz às costas, Cristo o transformara em si, e pusera nele a sua semelhança, e deste modo o entregara para ser crucificado, e que no mesmo tempo o Senhor, feito invisível, estava defronte, rindo-se dos que crucificavam a Simão, cuidando que o crucificavam a ele, e que dali se fora para o céu. – Tal foi o desatino deste bruto com nome de racional, ao qual imitou outro da mesma fé e do mesmo juízo, chamado Marcos, e destes se derivaram os hereges basilidianos e os marcitas. Também negaram a morte e cruz de Cristo todos os já referidos, que lhe atribuíram corpo fantástico, ou celestial, ou divino, ou humano, mas impassível, tendo uns e outros por menos inconveniente admitir em Cristo este fingimento que a verdadeira morte de cruz, como se não fora maior indignidade em Deus o enganar que o morrer, pois o enganar é mentir, e o morrer amar. Nós, porém, confessando no Rosário, e pregando com S. Paulo: Christum, et hunc crucifixum (49) – não só degolamos esta feia e monstruosa heresia, mas a outra ainda maior que nela se encerra, com que juntamente negavam a salvação do mundo.
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V. Nos mistérios gloriosos, que são os últimos, também tem muito que fazer ou desfazer o Rosário. O da Ressurreição de Cristo foi o primeiro, e os primeiros hereges que o negaram foram os judeus, os quais, assim como lhe tinham comprado a morte, lhe quiseram também comprar a ressurreição. Deram dinheiro aos soldados que guardavam o sepulcro, para que dissessem que, estando eles dormindo, vieram os discípulos e o roubaram. Tal é a verdade das testemunhas como a fé dos que as compraram. Ou os soldados dormiam ou não dormiam: se não dormiam, como o deixaram roubar? E se dormiam, como viram que o roubaram? Já Davi disse que a maldade se mentia a si mesma: Mentita est iniquitas sibi (50) – mas que se minta e se creia, só na obstinação da heresia se acha. Todos os hereges que negaram a Cristo a morte Lhe negaram coerentemente a ressurreição, porque quem não morre não ressuscita. Mas o errar coerentemente, não é emendar o erro, é multiplicá-lo. Hereges na morte, hereges na ressurreição, e por isso dobradamente hereges. Até os que concedem a Ressurreição de Cristo, erram nela torpemente (51). Apeles disse que ressuscitara, mas não na mesma carne em que morrera, se não em outra. Outros, que refere Tertuliano, que ressuscitara sem corpo; outros que com corpo, mas sem sentidos. Cerinto, com nova e ridícula distinção, diz que o que morreu não foi Cristo, senão Jesus, e do mesmo modo o que ressuscitou também foi Jesus, e não Cristo. E para que não houvesse circunstância de ressurreição sem sua heresia, os armenos disseram que ressuscitara ao segundo dia, e não ao terceiro, e os cerintianos, que nem ao terceiro dia ressuscitara, nem ainda em seu tempo estava ressuscitado, mas que ressuscitaria depois. Tudo isto disseram as heresias; e o Rosário que diz? Diz o que dizem as Escrituras, às quais só no mistério da Ressurreição se refere o Símbolo: Et ressurrexit tertia die secundum Scripturas(52). Diz, pois, o Rosário que ressuscitou ao terceiro dia, e que se ressuscitou a si mesmo, como Deus que era. E com estas três cláusulas, em que consiste toda a fé da Ressurreição, assim como Cristo triunfou da morte e do inferno, triunfa ele de toda esta farragem de heresias.
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No segundo mistério, que é o da gloriosa Ascensão de Cristo, também deliraram muito os hereges, e por muitos modos. Alguns, como refere Santo Agostinho (53), disseram que só a alma de Cristo subira ao céu, e o corpo ficara na terra: donde se segue que nem na terra nem no céu estaria hoje Cristo. Na terra não, porque Cristo é corpo sem alma; no céu não, porque não é alma sem corpo. Os maniqueus só admitiam que Cristo subiu em forma corporal visível, mas até às nuvens somente, e que ali se resolvera em ar, e se desvanecera (54). Erro que depois abraçaram Brêncio e Ilírico, igualmente heréticos e blasfemos. Os seleucianos e hermianos, partindo a jornada da Ascensão, fingiram que Cristo subira em corpo e alma até o quarto céu, e que deixando o corpo no sol, dali se partira para o empíreo. Assim interpretavam o verso de Davi: In sole posuittabernaculum suum (55) – aos quais seguiu Hermógenes no mesmo fingimento. Porém, Fabro, com nova fábrica, e depois dele Lutero, Brêncio, Uvigando, Músculo, Smidelino, e toda a canalha de hereges de nosso tempo, dizem que nem Cristo subiu nem podia subir ao céu (56). O argumento com que o pretendem provar é tão falso e tão herético como o mesmo assunto. Subir é deixar um lugar mais baixo, e adquirir outro mais alto: Deus, a quem está unida a humanidade de Cristo, está em todo lugar; logo, também a mesma humanidade está em todo lugar, e quem está em todo lugar, não pode subir, porque não pode deixar um lugar e adquirir outro. Por este argumento se chamam estes hereges ubiqüitários, os quais, cuidando que diziam uma grande sutileza, disseram duas finíssimas heresias: uma que supõem, outra que inferem. Supõem que a união da divindade comunicou à humanidade de Cristo o atributo da imensidade; inferem que nem subiu nem podia subir ao céu: e estas duas heresias se degolam, quando menos, com quatro textos expressos. O primeiro de S. João: Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem (57) – o segundo de S. Lucas: Et ferebatur in caelum (58) – o terceiro de S. Marcos: Assumptus est in caelum, et sedet a dextris Dei (59) – o quarto do mesmo Cristo: Ascendo ad Patrem meum, et Patrem vestrum (60). E isto é o que professa e protesta o Rosário.
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terceiro mistério glorioso é o da vinda do Espírito Santo, cujas línguas de fogo sempre queimaram e fizeram raivar os hereges. Cães raivosos, chama Santo Epifânio aos basilianos e georgianos, os quais, mordendo como Ário a Santíssima Trindade, quiseram tirar a divindade ao Espírito Santo, e lhe chamaram criatura: Velut rabiosi canes impudenter creaturam ipsum penitus decernunt, atque sic affirmant a Patre et Filio alienum esse (61). – O mesmo erro ensinou o impiíssimo Macedônio, e seus sequazes Eustátio e Lêusio, Maratônio, Aétio, e todos os semiarianos, e muito antes deles os simonianos e samaritas (62). E se perguntarmos a estes e outros semelhantes hereges que é o Espírito Santo, suposto que dizem que não é Deus, Macedônio disse que é o primeiro anjo superior no poder e autoridade a todos. Hierax, de quem tomaram o nome os hereges hieracitas, disse que era homem, e não outro senão aquele que nas Escrituras se chama Melquisedec (63). Mas esta heresia refutou Macário nos desertos do Egito com um argumento que não tem resposta (64). Foi lá um herege hieracita, muito erudito e eloqüente, a pregar esta falsa doutrina aos monges, e como eles não soubessem responder, porque não tinham estudado – Eu te responderei – disse Macário, que era o prelado. Mandou vir um morto em presença de todos, disse ao cadáver frio que em nome do Espírito Santo recebesse logo espírito de vida, e que sucedeu? Levantou-se subitamente vivo, falou o morto, e emudeceu o herege. Mas como não bastam milagres contra a obstinação herética, ainda vão as heresias por diante (65). Pedro Abailardo disse que o Espírito Santo era a alma do mundo; Donato disse que era Deus, mas menor que o Filho, como também o Filho menor que o Padre; e daqui nasceu a herética distinção dos que ao Espírito Santo chamam Deusmagnus, ao Filho Deus major, ao Padre Deus maximus (66). Exlaí, heresiarca e pseudoprofeta, com fábula mais ridícula, disse que o Verbo e o Espírito Santo ambos são filhos do Padre, só com a diferença no sexo (67). Finalmente, os mesmos basilianos, que foram os primeiros hereges contra o Espírito Santo, reconhecendo o seu erro, confessaram que o Espírito Santo verdadeiramente é Deus igual em tudo ao Padre e ao Filho, mas que o Padre e o Filho e o Espírito Santo não são três pessoas distintas, senão uma só. Tal é a cega condição dos hereges, que ainda quando acertam, não sabem emendar um erro sem outros. Sendo, porém, tantas e tão várias as heresias que o Rosário degola na confissão deste só mistério, ainda lhe resta hoje mais que degolar, porque, depois de estar convencida, pacífica e adorada em toda a Igreja a divindade do Espírito Santo por mais de mil e duzentos anos, Serveto e Valentino Gentil, e com eles Calvino, Beza, Melancton, e os outros hereges desta calamitosa idade, ou negam a divindade ao Espírito Santo, com que tornam a ser arianos, ou lha concedem com distinta pessoa e natureza, com que de novo são trietistas (68).
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Os mesmos, pois, que assim tratam a divindade do Esposo, como tratarão a glória da Esposa, que é a que só nos resta no quarto e quinto mistério? Dos hereges arianos, que negavam a divindade ao Verbo Eterno, e a concediam só ao Padre, disse elegantemente Santo Agostinho que cuidavam que não podiam honrar o Pai senão com afronta do Filho: Non se putant ad unici Patris gloriam nisi per unici Filii contumeliam pervenire. E nós podemos dizer dos hereges de nosso tempo que, parece, cuidam que não podem honrar o Filho senão com afrontas da Mãe, sendo certo que ao Filho diminuem a divindade, e à Mãe tiram totalmente a glória. Lutero, Calvino, Melancton, Brêncio, Buccero, Lossio, Sarcério, Culmano, Schenckio, e os demais – cumprindo-se neles a profecia das inimizades entre a serpente e a mulher que lhe havia de quebrar a cabeça – todos, como inimigos jurados da Mãe de Deus, a publicam blasfemamente por indigna de toda a honra, de todo o culto, de toda a veneração com que os católicos, muito menos do que suas prerrogativas merecem, a celebramos. Desde o mistério da Encarnação até o da Assunção gloriosa – que são todos os do Rosário – nenhuma ação há da soberana Virgem que não abatam, que não envileçam, que não mordam, que não roam, e em que não empreguem furiosamente os dentes venenosos estes filhos da serpente infernal. Não deixarei de dizer aqui uma só coisa que aprovou e lhe pareceu exemplar ao irreligiosíssimo Lutero. Em um sermão da Visitação, diz assim: Maria non sua causa Elisabetham adiit, nec aliam ob causam, quam ut praegnanti inserviret. Per hoc subruuntur omnia instituta, et ordines, qui eo tantum intendunt, ut sibi, non etiam aliis commodi sint (69): Maria – que tão simplesmente a nomeia – não foi visitar a Isabel por amor de si, senão para a servir a ela. E por esta ação ficam derrocados todos os institutos e ordens monacais que dentro dos claustros tratam só de si, e não dos outros. Isto, infame apóstata, isto é o que só louvas? Isto é o que só te agrada depois que com o hábito despiste a clausura, a religião, a fé, o juízo, a vergonha? Mas vamos ao ponto.
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Proibiu Lutero todas as festas da Virgem, Senhora nossa, e mais particularmente a de sua Assunção (70). E por quê? Porque, segundo os fundamentos da que ele chamou religião reformada, a mesma Mãe de Deus não teve maior santidade que qualquer outra criatura humana, ainda que fosse tão pouca santa como o mesmo Lutero. São palavras expressas suas: Tam nos sancti sumus, atque Maria, si modo in Christum credamus (71): Qualquer de nós é tão santo como Maria, contanto que creiamos em Cristo. Pode haver mais atrevida e mais descarada blasfêmia? O fundamento desta e das demais, tão abominável como elas, é dizerem as seitas de Lutero e Calvino que o céu não se dá por merecimentos, que pelas boas obras não se adquire graça ou santidade, que só a fé, ainda que faltem todas as outras virtudes, faz justos, e que os justos no céu todos são iguais, porque a glória se dá só pelo sangue de Cristo, o qual se derramou igualmente por todos (72). Daqui se seguem duas conseqüências notáveis contra a Assunção e Coroação da Virgem, Senhora nossa. A primeira, que a Mãe de Deus no céu não teria maior glória, nem melhor lugar que qualquer outro bem-aventurado, porque todos se Lhe igualam. A segunda, que a mesma Mãe de Deus ainda não está nem pode estar no céu, porque sem a fé luterana e calvinística – como eles ensinam – ninguém se pode salvar; e sendo a fé da Virgem Maria a maior de todas, é certo, e de fé católica, que não teve tal fé como a sua. Mas não são necessárias conseqüências para inferir esta heresia, porque o mesmo Lutero e Calvino dizem expressa e declaradamente que ninguém até hoje entrou no céu, exceto só a pessoa de Cristo, Senhor nosso, e que todos os outros estão de fora, esperando pelo dia do Juízo final, entrando também nesta conta a própria Mãe de Cristo (73). Porém, a mesma Senhora, que sabia isto melhor que Lutero e Calvino, com a experiência de mil e duzentos anos, quando instituiu o Seu Rosário, só com introduzir nele os dois mistérios de Sua gloriosa Assunção e Coroação, igualmente degolou no mesmo Rosário a temeridade blasfema desta heresia, como a impiedade de todas as outras: Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo.
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VI. Desta maneira refuta e degola as heresias a parte mental do Rosário, que são os mistérios; e não com menos eficácia, antes mais declaradamente faz o mesmo a parte vocal, que são as orações de que é composto. E, antes que desçamos ao particular de cada uma, digo que as mesmas orações do Rosário, por si só e geralmente tomadas, são uma protestação universal da fé católica, com que detestam e condenam todas as seitas e heresias contrárias. Notai muito a razão deste dito, que, sendo evidente, não é vulgar. A razão é porque toda a religião ou seita diversa se funda em diferente fé, toda a diferente fé se funda em diferente esperança, e toda a diferente esperança pede diferente oração, porque cada um pede conforme espera, e cada um espera conforme crê. Porque ensinou Cristo, Senhor nosso, a seus discípulos uma tão diversa e tão nova forma de orar, como é o Padre-nosso? Por isto mesmo. Porque como instituía uma religião nova e diversa de todas, era necessário que também a forma de orar fosse nesta religião nova e diversa. É altíssimo pensamento do doutíssimo Maldonado da nossa companhia o qual para mim, se não é o intérprete que melhor penetrou nas Escrituras, não têm elas outro que as interprete melhor: Quisquis unquam religionem mutavit, et orandi rationem mutavit. Nec ulla fuit nunquam religio, quae non certam supplicandi Deo rationem haberet(74): Ninguém mudou nunca a religião que não mudasse também a oração, e não houve também religião alguma diversa que não tivesse modo de orar a Deus também diverso – assim a diz este grande autor. E depois de o provar com o exemplo de Cristo e de seu precursor na mudança da lei de Moisés à lei da graça, o confirma com a autoridade dos santos padres, que assim o advertiram e notaram na mudança que fizeram todos os heresiarcas nas orações da Igreja todas as vezes que mudaram a fé. Os arianos, como notou Santo Atanásio, os valentinianos, como notou Santo Irineu, os marcionistas, como notou Tertuliano, os maniqueus e donatistas, como notou Santo Agostinho, e todos, finalmente, como notou Santo Epifânio, fazendo hoje o mesmo, como é notório, os luteranos e calvinistas (75). De sorte que as orações do Rosário, só por si mesmas e por serem próprias da Religião Católica, são uma protestação geral da verdadeira fé, com que também geralmente se confundem, refutam e degolam todas as seitas e heresias contrárias.
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Agora desçamos em particular à consideração das mesmas orações, e vejamos como em todo o Padre-nosso e Ave-Maria não há cláusula ou palavra em que se não refute alguma ou muitas heresias. Farei esta demonstração mais correndo que discorrendo, pois a brevidade do tempo não dá lugar a maior detenção.
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Pater noster. Esta palavra com que chamamos a Deus pai, ou se pode considerar com respeito à geração eterna, ou por ordem à criação temporal, que por isso acrescentamos nosso. Enquanto à geração eterna protestamos que o Eterno Padre tem Filho, que é o Verbo Eterno, e com esta protestação, supondo já degolados os ateístas, degola o Rosário a Praxeas, a Noeto, a Sabélio, a Paulo Samosateno, a Fotino, a Ário, e a Eunômio, os quais, ou não distinguiam a pessoa do Filho da pessoa do Padre, ou negavam que fosse gerado da mesma natureza divina (76). Enquanto à criação temporal, professa a nossa fé e reconhece a Deus por único criador do céu e da terra e de todas as coisas visíveis e invisíveis, não produzidas de alguma pressuposta matéria, mas criadas por Sua onipotência do nada; e com esta protestação não só degola o Rosário os estóicos, os platônicos, os pitagóricos, os epicureus, que foram os hereges da lei da natureza e os patriarcas de todas as heresias, como lhes chama Tertuliano (77), mas também, e mais particularmente, os que depois de Cristo os imitaram nas mesmas cegueiras e acrescentaram outras maiores, os simonianos, os menandrianos, os basilidianos, os valentinistas, os marcionistas, e por vários e novos erros dogmatizaram ao contrário, e, entre todos, os brutíssimos maniqueus, que com tão ignorante fé como herética filosofia, dividiram a primeira causa em dois princípios ou deuses: um, a que chamaram autor do bem, e outro do mal, dizendo que o bom criara a alma, o mau o corpo; o bom o dia, o mau a noite; o bom a saúde, o mau a enfermidade; o bom a vida, o mau a morte (78).
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Qui es in caelis. Deus tanto está no céu como na terra, e em todo o lugar; mas dizemos que está no céu porque no céu, como em Sua própria corte, se manifesta visivelmente a todos os bem-aventurados. E posto que o céu empíreo seja um só céu, chama-se, contudo, céus – in caelis – para maior declaração de Sua grandeza e majestade, assim como Jerusalém, que era a corte de Deus na terra, se chamava Jerosolimas. E com a propriedade e significação singular desta palavra, degola nela o Rosário a heresia de Saturnilo e Basilides, os quais diziam que os céus eram trezentos e setenta e cinco, criados, não por Deus, senão por outros tantos anjos, e que no último e ínfimo de todos morava o Deus dos judeus (79). Novo erro, e segunda e maior heresia, porque o Deus que entre os judeus se chamava Deus de Abraão, Deus de Isac e Deus de Jacó, é o mesmo Deus que os cristãos cremos e adoramos, então mais conhecido pela unidade da essência, como hoje pela unidade da essência e pela Trindade das Pessoas.
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Sanctificetur nomen tuum. Em dizer que seja santificado o nome de Deus, detestamos a mais atroz e horrenda heresia, com que entre os hereges setentrionais é profanado e blasfemado Seu santíssimo nome. Zuínglio, Calvino e Beza dizem que Deus quer que os homens pequem, e queab aeterno decretou que pequem, e que os obriga a que necessariamente pequem, e que não possam deixar de pecar, ainda que quisessem. Donde se segue, como douta e largamente demonstra Belarmino, que na sentença impiíssima destes mais ateus que hereges, Deus é a causa do pecado e de todos os pecados, e que quando os homens pecam, Deus é o que mais própria e mais verdadeiramente peca que os mesmos homens (80). E como a santidade e a puríssima e infinita santidade de Deus é a que mais se opõe ao pecado, de nenhum modo mais e melhor pode detestar a atrocidade desta blasfêmia e a maldade mais que diabólica desta heresia, que dizendo e repetindo, como diz uma e muitas vezes o Rosário: Sanctificetur nomen tuum.
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Adveniat regnum tuum. O mais próprio sentido desta petição é pedirmos que acabe de chegar o reino de Cristo, que será na Sua segunda vinda, quando vier a julgar vivos e mortos, já todos vivos pela ressurreição universal. Assim o diz em próprios termos S. Paulo: Per adventum ipsius, et regnum ejus (81) – e o mesmo Cristo aos discípulos: Donec videant Filium hominisvenientem in regno suo (82). E a protestação deste artigo de fé que fazemos no Rosário degola duas insignes heresias mais antigas que modernas. A primeira, que negava o Juízo universal, e foi dos barborianos, gnósticos, florianos, maniqueus e proclianistas. A segunda, que negava a ressurreição também universal, que foi de Himeneu e Fileto, de Valentino e Apeles, de Marco, Cedron e Almarico, dos caianos, dos ofitas, dos marcionistas, dos severianos, dos seleucianos, dos arcônticos, e outros (83).
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Fiat voluntas tua sicut in caelo et in terra. Observa nestas palavras S. João Crisóstomo que não dizemos a Deus: fazei, Senhor, a Vossa vontade em nós – ou façamos nós a Vossa vontade, senão, fiat; seja feita; e com que mistério? Para confessarmos que o fazer a vontade de Deus não depende só de Deus, nem só de nós, senão do seu e do nosso concurso juntamente. Do seu, por meio da Sua graça, do nosso, por meio do nosso alvedrio, porque, como douta e elegantemente disse S. Bernardo: Tolle liberum arbitrium, non erit quod salvetur; tolle gratiam, non erit unde salvetur (84). E com esta protestação degolamos de um golpe outras duas fortíssimas heresias: a dos pelagianos, que negavam a necessidade da graça, e a dos luteranos e calvinistas, que negam a liberdade do alvedrio. Em negarem o livre alvedrio, negam totalmente o ser humano; e assim era necessário que o fizessem em boa conseqüência, porque só deixando primeiro de serem homens podiam cair em erros tão irracionais e tão brutos.
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Panem nostrum quotidianum da nobis hodie. Aqui pedimos a Deus, como Pai do céu, o sustento temporal e espiritual necessário para esta vida e para a outra; e na confissão desta paternal e universal providência, detestamos aquela heresia tão assentada entre os filósofos gentios, e não abjurada totalmente entre os cristãos, com que eles criam que havia fortuna e fados, e nós, ainda que o não creiamos, nos queixamos dela, como se a fortuna, e não Deus, fora a que reparte o pão, dando tão pouco a uns, e tanto a outros (85).
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Et dimitte nobis debita nostra. Nesta grande e importantíssima cláusula rogamos a Deus que nos perdoe nossos pecados, com detestação e arrependimento deles. E que homem haverá com nome de cristão que negue ser este ato, ou dentro ou fora do Sacramento, louvável e de verdadeira penitência? Mas, sendo esta a que faz tremer o demônio e a que despoja o inferno, foi tão infernal e mais que diabólico o espírito de Lutero, que se atreveu a dizer que semelhante contrição faz ao pecador hipócrita e mais pecador: Haec contritio facit hypocritam, et magis peccatorem (86). – O mesmo professa toda a escola cega e torpe deste infame mestre, Melancton, Beza, Tilemana, Kemnício, e com seu colega Calvino, toda a outra sentina dos hereges de nosso tempo. Acrescentamos, para mover a misericórdia divina a que nos perdoe, o perdão que também nós damos a nossos inimigos: Sicut et nos dimittimus debitoribus nostris – e sendo este o maior ato da caridade cristã, também a esta heróica obra, como a todas as boas e de virtude, negam os mesmos hereges o valor e merecimento, chegando a dizer que todas são injuriosas à satisfação do mesmo Cristo, que nos ensinou a orar assim, com que eles e todas estas heresias ficam degoladas.
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Et ne nos inducas in tentationem. Aqui nos ensinou o mesmo Senhor a desconfiar de nossa fraqueza, e recorrer a Seu auxílio e graça para não cair em tentação. Mas, assim como antigamente Pelágio tinha escrito que para resistir as tentações não era necessária a graça de Deus, e bastavam as forças do alvedrio humano, e assim como Joviniano disse que o homem legitimamente batizado não podia ser vencido das tentações do demônio, assim, e com mais abominável erro, e com furor e arrojamento verdadeiramente infernal, ensinam os mesmos luteranos e calvinistas que nem a constância nas virtudes ajuda, nem a fraqueza e caída nos vícios impede a salvação (87). E se pedirmos a razão a estes brutos – como o bruto de Balaão lha pediu a ele, que também era herege – respondem os libertinos, como discípulos da mesma escola, que as ações dos homens todas são indiferentes, e que nelas não há bem nem mal. Mas esta estólida heresia degola, como as demais, o Rosário, concluindo com a última cláusula do Padre-Nosso: Sed libera nos a malo.
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VII. Passando à oração da Ave-Maria, logo nas primeiras palavras e como na vanguarda, se opõe contra o sagrado uso e exercício dela um exército de hereges armados de cegueira, de impiedade, de furor, de blasfêmia. Calvino, Pomerano, Brêncio, Bucero, Pelicano, Belingero, Marbáquio, Uvigando, e outros, todos condenam aos católicos o uso da Ave-Maria, dizendo que esta oração é supersticiosa, porque nela louvamos e engrandecemos tanto a Senhora, que de criatura a fazemos deusa. As palavras do último que nomeei são estas: Qui Mariam hac salutatione compellant, in crimen superstitionis incurrunt, quia contra Dei verbum ex creatura faciunt deam, et Mariae divinitatem ascribunt (88). Só o testemunho desta calúnia, em que se conjuraram tantos, basta para conhecer quem são os hereges, e a temeridade, a mentira, e a ignorância brutal de quanto dizem. De maneira que, porque repetimos o que disse o anjo e o que disse Santa Isabel à Virgem Maria, somos supersticiosos, e porque pedimos à mesma Senhora que rogue por nós a Deus a fazemos deusa? Mas porque a futilidade blasfema desta heresia se degola por si mesma, triunfe sobre ela o Rosário, mais desprezando-a que convencendo-a, e faça cada católico raivar tantas vezes cada dia a todos os hereges quantas são as que nele se repete a mesma Ave-Maria.
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Gratia plena. Saudamos como o anjo a Virgem, Senhora nossa, com o nome de cheia de graça, excelência tão sublime que, trazendo-Lhe a embaixada do anjo o título de Mãe de Deus, é maior ainda o nome da saudação que o título da embaixada. Três coisas ensina a fé católica acerca da graça. A primeira, que é um hábito sobrenatural inerente na alma, e não distinto realmente da caridade, o qual faz ao homem grato a Deus, e por isso justo e santo. A segunda, que não consiste a graça na fé, posto que a supõe, e muito menos na fidúcia ou confiança posta só nos merecimentos de Cristo, o qual de nenhum modo pode justificar a alma. A terceira, que só à graça é devida a glória, e que sem graça ninguém, por mais obras, moral ou materialmente, boas que faça, se pode salvar. Isto é o que ensina a fé, e o que protesta o Rosário, e por isso nas duas primeiras protestações degola as heresias dos luteranos e calvinistas, que são as modernas, e na terceira as dos pelagianos e celestinos, que são as antigas (89).
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Dominus tecum. O sentido e energia enfática com que o anjo disse à Senhora estas palavras, diz Santo Agostinho que foi esta: Dominus tecum, sed plusquam mecum: O Senhor é convosco, mas muito mais convosco que comigo. – E por quê? In me enim, licet sit Dominus, memetipsum creavit Dominus; per te autem genitus est Dominus: Porque comigo está o Senhor que me criou, e convosco está o Senhor que vós gerastes. O mesmo dizemos e confessamos nós quando dizemos na Ave-Maria: Dominus tecum – e quantas vezes repetimos esta confissão tantas degola o Rosário a blasfêmia e sacrílega heresia de Nestório, o qual, não podendo negar a divindade de Cristo, para apartar o Filho da Mãe, e o Dominus do tecum, que fez (90)? Confessando o mesmo todo, dividiu as partes e os tempos, e com invento mais que diabólico veio a dizer que o Senhor nascera da Virgem Maria homem, que depois por seus merecimentos no batismo recebera o ser Cristo, e que finalmente pela morte que padecera alcançara depois da ressurreição o ser Deus. Isto se atreveu a pronunciar aquela execranda língua, a qual, porém, na vida foi comida de bichos, e na morte não sofrendo a terra em si tão abominável cadáver; subitamente se sumiu nela, e foi sepultado no inferno.
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Benedicta tu in mulieribus. Aqui dizemos que é a Virgem Maria bendita entre todas as mulheres, não só para declarar a excelência e dignidade infinita com que excede a todas, mas para confessarmos que foi mulher. E por que razão em coisa tão manifesta? Porque também é necessária esta confissão para degolar duas heresias. A primeira de homens, que foram os coliridianos, os quais diziam que a Virgem Maria não fora mulher, senão Deus; a segunda de mulheres, que foram as da Arábia, Trácia e Cítia, as quais, como refere Santo Epifânio, adoravam a mesma Senhora como deusa, e lhe ofereciam sacrifício (91). Parece que mereciam algum perdão estas heresias, pela devoção e afeto com que foram inventadas, mas onde não há verdade não pode haver devoçãoPor isso a do Rosário excede facilmente a todas, porque não só é solidamente verdadeira, mas destruidora de todos os erros.
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Benedictus fructus ventris tui Jesus. Nestório, e os hereges geralmente chamados anticomarianitas, ou antimarianos, que quer dizer inimigos ou contrários de Maria, dizem que morou Deus em suas entranhas como em casa, ou assistiu nelas como em templo, no qual, porém, se entra e sai, mas não se recebe dele o ser (92). Outros, como o raio de luz que passa sem lesão pela vidraça, mas nasce no céu e do sol. Outros, finalmente, como a água do canal, ou no rio que passa por ele sim, mas tem o seu nascimento na fonte. E por mais que esta heresia se explique por tantos modos plausíveis e aparentes, todos eles degola o Rosário, dizendo:Benedictus fructus ventris tui Jesus. Assim como o fruto nasce da árvore, e da substância da árvore recebe o ser, assim o Filho de Deus, que é o rio da fonte, e o raio do sol, e o herdeiro da casa, e o Senhor igualmente do templo, de tal maneira morou nas entranhas de Maria, que delas, como verdadeiro fruto, recebeu a substância e o ser, e delas, como verdadeiro Redentor, recebeu o sangue, que foi preço infinito da Redenção pela qual se chama Jesus: Et benedictus fructus ventris tui Jesus.
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Sancta Maria. Implacável é o ódio com que os hereges perseguem, e as calúnias com que procuram escurecer a santidade da Virgem Santíssima, argüindo pecado onde nunca houve, nem pode haver, nem a mais venial sombra dele. Assim o fazem em vão Lutero, principalmente, e Calvino, e todos seus discípulos, não só ímpios contra a fé, mas ingratos à mesma Senhora, segundo suas próprias seitas (93). Em certo modo mais obrigação tinham estes hereges de ser devotos da Virgem, Senhora nossa, que os católicos. Porque a Virgem Maria foi Mãe de um Filho tão benigno e liberal para com eles – segundo eles dizem – que, dando-lhe licença para viverem em todos os vícios, sem mais arrependimento nem penitência, contanto somente que o creiam, lhes promete o céu. E para conosco, os católicos, é tão justo e severo juiz o Filho da mesma Senhora, que não bastando a nossa fé, com ser a verdadeira, para nos salvar; basta um só pecado sem arrependimento para nos lançar no inferno. Pois, se tanto devem os hereges ao Filho desta Mãe, por que a perseguem tanto? Porque conhecem, ainda que o dissimulem, a verdade da doutrina católica, e como sabem que o Filho da mesma Senhora os há de condenar sem dúvida, por isso têm tão grande ódio à Mãe. Estes mesmos, pois, que tão blasfemamente querem pôr mancha na santidade sempre imaculada da Virgem Maria, são também os que tornaram a ressuscitar em nossos tempos, e atirar outra vez do inferno, onde já estava sepultada com ele, a heresia de Nestório, negando à mesma Senhora a própria e verdadeira maternidade do Filho de Deus e seu. Mas assim como o Rosário degola aquela heresia, dizendo: Sancta Maria, assim torna a degolar esta, acrescentando: Mater Dei.
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Ora pro nobis peccatoribus. Esta tão piedosa deprecação impugnam também os hereges, e que hereges? Quem esperara tal juízo de uma cabeça coroada, e da coroa que maior obrigação tem de ser católica? O imperador Constantino Coprônimo passou um decreto, que dizia assim:Ne Mariae quidem intercessionem quisquam petat, neque enim illa juvare quemquam potest (94): Ninguém peça a intercessão de Maria, porque ela não pode ajudar a ninguém. Eis aqui, novo Herodes das almas, para que Deus te deu esse poder: para que o tirasses a sua Mãe. Não debalde mereceste na pia o sujo e infame sobrenome de Coprônimo, profanando as sagradas águas do batismo em portentoso prognóstico de tuas impiedades, blasfêmias, heresias e artes mágicas, chegando a pactuar com os demônios de fazer cruel guerra aos santos. Acabou a vida este monstro abrasado em fogo de suas próprias entranhas, e confessando a gritos que vivo estava já entregue aos incêndios eternos pelo que tinha feito contra a Virgem Maria: Adhuc vivens inextinguibili igni traditus sum propter Mariam (95). E porque seus infames ossos não descansassem em melhor sepultura, o imperador Micael os mandou desenterrar; e em dia de grandes festas queimar publicamente (96). Assim castiga as injúrias de sua Mãe o mesmo Deus, que tanto sofre e dissimula as suas. Mas a protérvia e obstinação herética, nem com a paciência se abranda, nem com o castigo se emenda. Constantino não teve a quem imitar mais que a Vigilâncio, e teve depois por imitadores os petrobrosianos, os cátaros, os tabaritos, e, em nossos tempos, a todos os calvinistas e luteranos, que tantas e tão nobres partes da Europa têm infeccionado com esta peste. Merecedores justamente de que vivam e morram nas trevas de sua cegueira, pois proíbem o recurso à fonte donde nasceu a luz.
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Nós, porém, ó Mãe de Deus, e advogada única dos pecadores, protestando a verdade desta fé, confirmada com tantos benefícios de Vossa poderosíssima intercessão, prostrados humildemente a Vossos santíssimos pés, todos com a voz e com o coração Vos dizemos: Ora pro nobis peccatoribus. E acrescentamos: Nunc, et in hora mortis nostrae, porque não só na vida, mas na morte, e depois dela, reconhecemos dever à mesma intercessão e amparo Vosso a indulgência das penas do Purgatório, e a glória eterna do céu. Negaram o purgatório os hereges aérios, os uvaldenses, os chamados apostólicos, as uviclefistas, os hussitas, os albigenses, e para que em nada deixassem de errar, também Lutero e Calvino com todos seus sequazes; negaram a imortalidade das almas os saduceus, os psíquicos, os arábicos, os hermanianos, e todo o antigo e bestial rebanho de Epicuro, e o moderno dos ateus (97). Porém nós, que ensinados não só da fé, mas da experiência e da razão, cremos que as almas são imortais, e que os pecados cometidos na vida, ou se purgam depois da morte com satisfação temporal, ou se castigam sem fim com pena eterna. Na mesma cláusula com que dizemos à Virgem Santíssima: Ora pro nobis peccatoribus nunc, et in hora mortis nostrae – detestamos e confundimos estas duas perniciosíssimas heresias, e com a mesma detestação acaba de degolar o Rosário assim as que pertencem à parte mental do que medita, como à vocal do que reza.
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VIII. Mas, posto que as heresias referidas e detestadas sejam tantas e tão várias, como a obrigação do meu assunto é mostrar que a Virgem, Senhora nossa, por meio do seu Rosário, não só matou muitas, senão todas: Cunctas haereses sola interemisti, parece que contra a generalidade desta proposição se estão opondo nesta mesma Igreja e seus altares três exceções evidentes: a das cruzes, e das imagens, e a da real e verdadeira presença de Cristo no diviníssimo Sacramento. Confesso que os erros e heresias que encontram estes três atos da Fé e Religião Católica – que são nos templos da cristandade os mais públicos – ainda até agora as não degolou o Rosário, mas é porque ainda o não consideramos todo.
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Primeiramente, quem viu jamais Rosário sem cruz? Nem há Rosário sem cruz, nem cruz no Rosário bem rematada sem medalha. Com a cruz degola o Rosário a heresia dos paulicianos, dos bruissianos, dos uviclefistas, dos bogomiles, porque estes, como os calvinistas e protestantes em nossos dias, derrubam, quebram e desterram as cruzes, as quais nós, pelo contrário, em memória e figura da sacratíssima Cruz em que Cristo padeceu e nos remiu, adoramos com suma veneração (98). E com as medalhas, ou sejam do mesmo Cristo, ou da Virgem, Senhora nossa, ou de qualquer outro santo de nossa devoção, degola do mesmo modo o Rosário a heresia de Carolstádio, de Uviclef, de Lutero, de Zuínglio, de Calvino, e dos mais, por isso chamados iconômacos, os quais negam e proíbem o culto e veneração das sagradas imagens, como dantes o tinham proibido os judeus no Talmud e os maometanos no Alcorão, que de tais mestres tais discípulos. Chamam impiamente a este culto idolatria, sendo piedade, religião e parte da mesma fé, definida pelos Concílios, canonizada com os templos, altares e votos, usada dos santos padres em todas as idades, e confirmada com infinitos milagres.
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Resta só a protestação do Santíssimo Sacramento no Rosário, a qual de indústria reservei para este último lugar, estando no mesmo Rosário mais expressa que todas:Panem nostrum quotidianum da nobis hodie. Pedimos nestas palavras o sustento temporal e espiritual para o corpo e para a alma, e no espiritual e da alma o primeiro e principal, e mais substancial de todos, que é o corpo de Cristo, o qual verdadeiramente comemos no diviníssimo Sacramento. Assim o declarou o mesmo Cristo na mesma oração do Padre-Nosso, dizendo por S. Mateus: Panem nostrum supersubstantialem(Mt. 6,11). Chama-se pão, porque se nos dá debaixo de espécies e acidentes de pão. Chama-se nosso, porque é próprio dos fiéis e filhos da Igreja Católica. Chama-se quotidiano, porque todas os dias se consagra e oferece no sacrossanto sacrifício da missa. E chama-se, finalmente, sobre-substancial, porque excede infinitamente a todas as substâncias criadas, dando-se nele a do mesmo Criador. Isto é o que confessa e protesta o Rosário expressamente naquelas soberanas palavras, não se achando tão expressa protestação do Santíssimo Sacramento em nenhum símbolo da fé. Os símbolos da fé são três. O dos apóstolos, composto por eles no princípio da primitiva Igreja, que é o que ordinariamente repetimos; o símbolo Niceno, decretado dali a trezentos anos no Concílio de Nicéia, em que se ajuntaram trezentos e dezoito bispos, que é o que se canta na Missa; e o símbolo de Santo Atanásio, em que se contém a confissão da sua fé, declarada não muito depois, e aprovada em Roma, que é o que todos os domingos se lê na reza eclesiástica.
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Agora pergunto, e perguntarão todos com muita razão, se em todos estes símbolos, e em cada um deles se contém o que crê a Fé Católica, e o Santíssimo Sacramento do altar é por antonomásia o Mistério da Fé (99), por que se não faz expressa menção dele em algum dos mesmos símbolos, ao menos no segundo e no terceiro? A razão é, como consta de todas as histórias eclesiásticas, porque tendo reduzido os apóstolos o primeiro símbolo ao que era somente preciso para a pregação universal do mundo, por ocasião de algumas heresias que de novo se foram levantando na Igreja, foi necessário declarar com maior distinção e formalidade nos outros símbolos o que só virtualmente se continha no primeiro. Não houve, porém, esta necessidade – ponto verdadeiramente digno de grande reparo, e tanta consolação para os católicos como confusão para os hereges – não houve, digo, esta necessidade na fé do Santíssimo Sacramento. E por quê? Porque desde seus princípios esteve tão firmemente crida e tão estabelecida entre todos os cristãos a verdade deste altíssimo mistério que em espaço de setecentos anos não houve quem o pusesse em questão, e nos trezentos e cinqüenta anos seguintes só houve um homem na Igreja grega, e outro na Latina, que em diversos tempos o duvidaram, até que no ano de mil e cinqüenta do nascimento de Cristo, o impiíssimo Berengário – que comumente se reputa pelo heresiarca deste erro – se atreveu a querer defender publicamente que o corpo de Cristo não estava no Sacramento. E, posto que uma vez caído, outra relapso, e de ambas as vezes convencido, abjurou Berengário a sua heresia; assim abjurada por seu próprio inventor, a ressuscitaram no século passado, e a seguiram Lutero e Calvino, não conformes porém então, senão divididos em duas seitas. Lutero, mais moderado, confessa que no Sacramento está o corpo de Cristo, mas diz que juntamente está pão, e Calvino, totalmente cego e impudente, só diz que está ali pão, e de nenhum modo o corpo de Cristo.
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Estas são as duas heresias que hoje permanecem entre luteranos e calvinistas, com igual injúria e dano da cristandade, as quais finalmente degola o Rosário confessando e protestando com a fé católica que de pão não há no Sacramento mais que os acidentes, e o que dantes era a substância dos mesmos acidentes, por milagrosa e verdadeira transubstanciação, está ali convertida na substância do corpo de Cristo, que é o que cremos e adoramos naquela Hóstia consagrada. Assim que o Rosário entendido, meditado, e rezado na forma em que foi instituído pela Virgem Maria, Senhora nossa, é uma protestação da fé católica, tão universal juntamente, e tão particular, que mais expressamente se refutam nele muitas heresias, e mais extensivamente todas, que em todos os três símbolos da mesma fé. E desta maneira se verifica gloriosamente do mesmo Rosário que por meio dele degolou a Virgem Maria, e ela só, as heresias de todo o mundo: Cunctas haereses sola interemisti in universo mundo.
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IX. Tenho acabado, fiéis, o meu discurso. E, pois, ele, por haver sido tão dilatado, não permite larga peroração, eu o resumo a três palavras. A primeira, que à vista de tantas e tão enormes heresias, não só alheias da fé, mas de todo o entendimento e juízo, conheçamos quando escurece o lume da razão a cegueira dos vícios – que são as raízes donde todas elas nasceram – e demos infinitas graças a Deus por em tempos tão contagiosos ter livrado a nossa pátria desta peste, da qual ela se conservará pura e sem lesão, enquanto a licença dos mesmos vícios, que tanto crescem, não provocarem o céu a semelhante castigo.
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segundaque não faltemos jamais no santo exercício do Rosário, oferecendo-o a Deus e a Sua Santíssima Mãe, não só como tributo da nossa devoção e piedade, mas como protestação da nossa fé, e como um público sinal e testemunho dela. Quando o Concílio Antioqueno condenou a heresia de Ário, que tão grande cisma tinha causado na Igreja, tomaram por empresa os católicos, para se distinguir dos arianos, trazer ao pescoço as definições do mesmo Concílio em sinal da sua fé: Tanquam symbolum fidei, ut se catholicos, et non arianos esse profiterentur – diz, referindo este antigo exemplo, Maldonado (100). O qual acrescenta pia e doutamente que ao mesmo fim devemos nós trazer em público o Rosário, porque só ele basta para protestação da fé que professamosQuemad modum, si quae vulgo Rosaria vocant, quibus precari sacram Virginem salemus, laco torquis ad collum geras, ut ostendas te non haereticum, sed catholicum esse.
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terceira e última palavra é que estejamos muito confiados e certos que esta nossa protestação será mais agradável a Deus, porque nela mostramos que somos Seus, e da Sua parte, e seguimos a bandeira da Sua fé em tempo que tantos a negam. Por que foi tão estimada a fé de Tobias? Porque, quando os outros iam adorar os ídolos de Jeroboão, ele fazia as suas romarias ao Templo de Jerusalém. Por que prometeu Cristo o paraíso ao ladrão, e lho deu de contado no mesmo dia? Porque, quando todos O negavam e blasfemavam, ele O confessou à vista de todos. E, finalmente, por que é tão louvada e celebrada Marcela, a mulherzinha humilde do Evangelho? Porque, quando os escribas e fariseus caluniavam a santidade e divindade do mesmo Senhor, ela levantou a voz em Sua defensa. Façamos nós o mesmo com o Rosário na boca, no coração e nas mãos, e com esta pública protestação da fé católica confundiremos e degolaremos as heresias passadas e as presentes, assim como ela degolou e confundiu as presentes e as futurasUt et praesentium procerum calumniam et futurorum confundat haereticorum perfidiam.
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Notas:
(1) Uma mulher, levantando a voz do meio do povo, lhe disse: Bem-aventurado o ventre que te trouxe, e os peitos a que foste criado (Lc. 11,27).
(2) Ele expele os demônios em virtude de Belzebu, príncipe dos demônios (Ibid. 15).
(3) Bem sei que és o Santo de Deus (Mc. 1,24).
(4) Suar. in 3 part. tom. 2 disput. 19, sect. I
(5) Cornelius in cap. 3 Genes. v. 15.
(6) August. Chrysost. Athan.. Irineus, Iib. 1, cap. 9 et lib. 2, c. 57.
(7) Lutherus citatus a Cornel. in epist. ad Tim. cap. 4, v. 1.
(8) Cassianus, collat. 7, c. 32.
(9) Em qualquer dia que comeres dele, morrerás de morte (Gên. 2, 17).
(10) Bem podeis estar seguros que não morrereis de morte (Gên. 3, 4).
(11) August lib. II de Genes. ad literam c. 1 et 24, et lib. 14 civit. cap. 7. Idem docent S. Ignatius ad Trallianos, Irin. lib. 3, cap. 37. Hilar. in Matth. 3, Epiphan. Haeres. 39, Ambros, Cyrill, etc.
(12) Gregor. IX in Bulla Canonizat. S. Dominici.
(13) A1anus a Rupe in Hist. Dominic.
(14) Que de dois fez um (Ef. 2, 14).
(15) Matando as inimizades em si mesmo, para formar os dois em um, e para reconciliá-los a ambos (Ibid. 15 s)
(16) Não há distinção de judeu e de grego (Rom. 10,12).
(17) Luther. in comment c. 1 ad Galat.
(18) Eu recebi do Senhor o que também vos ensinei a vós (1 Cor. 11,23).
(19) Eu vos louvo, pois, porque guardais as minhas instruções como eu vo-las ensinei (Ibid. 2).
(20) Conservai as tradições que aprendestes, ou de palavra, ou por carta nossa (2 Tes. 2,14).
(21) Calvinus, Brencius, Kemnitius, Hamelmanus, apud Bellarmin. de Verbo Dei Scriptio, cap. I
(22) Vide Baronium et Spondanum sub iisdem nominib. et Suarium disp. 7, sect. 2 et 3, tom. 1, in 3 par.
(23) No qual todos pecaram (Rom. 5,12).
(24) August. advers. Julian.
(25) Ita Bellarmin. tom. 2, lib. 1, c. 6, pág. 233.
(26) Epiph. haeresi 30.
(27) E sendo reconhecido na condição como homem (Flp. 2, 7).
(28) Ex Epiphanio, D. Hieronym. Bellar.
(29) Na sarça ardente, vista por Moisés, reconhecemos tua santa e inviolável virgindade.
(30) Omnes isti citantur pro eo tempore a Baronio, et ex eo a Spondano in Apparatu pág. 2 et 3.
(31) Eis aqui está posto este menino para ruína e para salvação de muitos em Israel, e para ser o alvo a que atire a contradição (Lc. 2,34).
(32) Ouvindo-os, e fazendo perguntas (Lc. 2, 46).
(33) Ita de illis Epiphanius.
(34) Ita de his Bellarmin.
(35) Tertul. relatus a Mald. in cap. 1 Matt.
(36) D. Ambr. in Psalm. 118, Sermon. II; D. Aug. Serm. 107 de tempor.
(37) E ajuntou-as umas às outras pelas caudas, e no meio atou uns fachos (Jz. 15, 4).
(38) Epiph. Haeresi 22, Bellarm. de Christo lib. 3, cap. 1.
(39) Suares, part. 1, disp. 32, sect. 1.
(40) Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas (Is. 53,4).
(41) Bellarm. lib. 4, c. 8.
(42) Se é possível, passe de mim este cálix (Mt. 26,39).
(43) Não se faça, contudo, a minha vontade, senão a tua (Lc. 22, 42).
(44) Bellarminus in praefatione ad libros de Christo.
(45) Deus te salve, rei dos judeus (Mc. 15. 18).
(46) Nós não temos outro rei, senão o César (Jo. 19.15).
(47) Baron. anno Christi 71.
(48) Epiph. haeresi 24, pág. 21.
(49) Cristo, e este crucificado (I Cor. 2.2).
(50) A iniqüidade mentiu em seu dano (Sl. 26,12).
(51) Epiph. haeresi 28; Iren. lib. 1, c. 24; August. de Haeresibus, lib. 8; Tertull. Philast.
(52) E ressuscitou ao terceiro dia segundo as Escrituras (Símbolo dos Apóstolos).
(53) August. de Agone Christi, cap. 25.
(54) Gregor Nazianz. orat 51; Tertull. de carne Christi, cap. 24; Theod. lib. 1, Haereticarum Fabul.
(55) No sol pôs o seu tabernáculo (Sl. 18,6).
(56) Apud Bellar. de Incarnat. lib. 3, c. 12.
(57) De passar deste mundo ao Pai (Jo. 13,1).
(58) E era levado ao céu (Lc. 24.51).
(59) Foi assunto ao céu, onde está sentado à mão direita de Deus (Mc. 16,19).
(60) Vou para meu Pai e vosso Pai (Jo. 20, 17).
(61) Epiph. haeresi. 24.
(62) Baron. anno Christi 360. Idem in apparatu loquens de Samaritis.
(63) Epiph. haeresi. 67.
(64) Spond. anno Christi 287.
(65) Reliquia ex Baronio, sub iisdem nominibus.
(66) Epiphan. Haeresi. 19 et 53.
(67) Euseb. 6 Historiae, 3 r.
(68) Bellar. in citata praefatione.
(69) Lutherus in Serm. de Visit. B. V.
(70) Ita Canisius in praefat. ad Iib. 2.
(71) Luther. in postil. circa Evang. domin. 3 post Epiph.
(72) Haec omnia late Bellarm. in libris de gratia et Iib. Arbitr. et in libris de justificatione et bonis operibus.
(73) Luther. in praelectione in Genesim; Calvin. lib. 3 institutionum, c. 20,24,25.
(74) Maldon. In Lucam cap. 11.
(75) Citati ab ipso Maldonado.
(76) August, lib. I de Haeresib. cap. 4; Hilar. lib. de Synodis; Theodoretus Haeretic. Fabular lib. 4.
(77) Epiph. haeresi. 5.6.7.8.
(78) Cyril. Epiph. August. Athanasius, Theod. citati a Baron. anno Christi 277.
(79) Epiph. haeresi. 24.
(80) Bellar. de amissione gratiae et statu peccati cap. 6.
(81) Na sua vinda e no seu reino (2 Tim. 4, 1).
(82) Antes que vejam vir o Filho do homem na glória do seu reino (Mt. 16, 28).
(83) Epiph. Baron. Alfons. a Castr. V. Judicium v. Resurrectio.
(84) D. Bernard. citatus a Bellar in Praefat. de libero arbitrio. Idem Bellar in iisdem libris latissime.
(85) Zeno, Plato, Pitagor. Epicuro, etc. in quo herrore hausto ab Aegyptiis etiam fuisse Pharisaeos, ait ex Josepho Spondanus in apparatu n. VI
(86) Ex Canisio et Bellar. totis libris de vestit. et bonis operibus.
(87) Bellar. de gratia et lib. arb. a cap. 4 et deinceps.
(88) Canisius lib. 3 c. 8,9,10, etc.
(89) Ex Bellar. et Baron. supra citatis.
(90) Canisius, lib. 3, c. 8, pág. 158 et 159.
(91) Epiph. in Panario haeresi. 79. Idem haeresi. 78. D. Thom. in 3, distinct 4, q. 2, art. I, ait fuisse haeret. qui B. V. naturae cujusdam caelestis seu angelicae afferent.
(92) D. Cyril in defens. primi anathematis relatus a Suares, tom. I, in 3 part. disp. 8, sect 1.
(93) Apud Canisiun supra
(94) Apud Canisiun supra
(95) Cedren. relatus a Baron. anno Christi 775.
(96) Georg. Harmat. et ex eo Rader, relati a Spondi. eodem anno n. 11.
(97) Bellar. lib. de Purgat. ex libro de beat. et in. Vocat. Sonctor. a cap. 15.
(98) Vasques, de Adoratione, lib. 7, c. 1. Bellarm. de imaginibus Sanctor lib. 2, c. 26.
(99) Bellar. de Sacram. Eucharist. cap. I, lib. 1.
(100) Maldon. in Joannem, cap. 1

Extraído do blog A grande guerra

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0111

O Templo de Agripa foi consagrado ao tempo de Augusto a todos os deuses do paganismo e por esse motivo denominado Panteão. Bonifácio IV mandou para lá transladas as ossadas dos Mártires encontradas nas catacumbas e no dia 13 de Maio de 610 dedicou esta Nova Basília ao culto dos Mártires e da Virgem Santíssima.
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A festa desta dedicação foi tomando com o tempo caráter mais universal, sendo mais tarde consagrada à Virgem SS. e a todos os Santos. Existindo já, porém, a festa da comemoração de todos os Santos, celebrada primeiramente em dias diferentes nas diversas igrejas(paróquias) e em 835 fixada por Gregório IV no dia 01 de Novembro, Gregório VIII transferiu para esta data a dedicação do Panteão.
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A festa de hoje recorda pois e celebra a vitória do Deus verdadeiro sobre as falsas divindades do paganismo. Em razão da sua procedência, a Missa vai buscar numerosos textos à liturgia dos Mártires. A Santa Igreja coloca-nos debaixo dos olhos a admirável visão do Céu, a visão dos doze mil inscritos (12 por ser número perfeito e indicar plenitude) de cada tribo de Israel e da multidão sem conta, procedente de todos os povos, línguas e tribos, todos de pé diante do Cordeiro, revestidos de branco e com palmas na mão.
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Jesus Cristo, a Virgem SS., as falanges dos Espíritos bem-aventurados distribuídos em nove coros, os Apóstolos, os Mártires envoltos na púrpura do sangue que verteram, os Confessores vestidos de branco, o coro casto das Virgens formam o majestoso cortejo. Compõe-se dos que na Terra andaram pelos passos de Jesus, dos pobres de espírito, dos mansos, dos aflitos, dos que sofreram fome e sede de justiça, dos misericordiosos, dos puros, dos pacientes, dos que foram perseguidos pelo nome de Jesus.
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Alegrai-vos, lhe dizia o Mestre, porque a vossa recompensa será grande no Céu.
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Entre estes milhares de justos que foram na Terra discípulos fiéis de Cristo encontramos muitos dos nosso parentes, amigos, filhos da nossa terra e da nossa aldeia, os quais participam já da glória do Senhor, Rei dos reis e coroa de todos os Santos. Ao assistirmos à Missa neste dia, lembremo-nos que o sacerdócio de Jesus Cristo na Terra, exercido invisivelmente nos nossos altares se identifica como o que visivelmente exerce no Céu. Os altares da Terra onde reside o Cordeiro de Deus e o altar do Céu onde o mesmo Cordeiro se ostenta de pé e em estado de vítima são um e o mesmo altar.
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Toda a Missa procura despertar em nós esta presença do Céu.
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(Missal quotidiano e vesperal – Dom Gaspar Lefevbre – 1951)

Visto em: As Muralhas da Cidade

Leão XIII, no final de sua Encíclica [Humanum Genus, 1884], revela o modo como estas seitas clandestinas se insinuam no coração dos príncipes, ganhando sua confiança com o falso pretexto de proteger sua autoridade contra o despotismo da Igreja; na realidade, com o fim de inteirar-se de tudo, como o prova a experiência, já que depois – acrescenta o Papa – estes homens astutos lisonjeiam as massas fazendo brilhar ante seus olhos uma prosperidade da qual, segundo dizem, os Príncipes e a Igreja são os únicos e irredutíveis inimigos. Em resumo: precipitam as nações no abismo de todos os males, nas agitações da revolução e na ruína universal, de que não tiram proveito senão os mais astutos.

Este objetivo real da descristianização se mascarava antes com outro que só era aparente. A seita se apresentou ao mundo como sociedade filantrópica e filosófica. Mas, logrado alguns triunfos, arrancou a máscara. Se gloria de todas as revoluções sociais que sacudiram a Europa, e especialmente da francesa; de todas as leis contra o clero e as Ordens religiosas; da laicização das escolas; da retirada dos Crucifixos dos hospitais e dos tribunais; da lei do divórcio, e tudo quanto descristianiza a família e debilita a autoridade do pai, para substituí-la por um Governo ateu. Pratica o adágio: dividir para vencer. Separar da Igreja os reis e os Estados; debilitar os Estados, separando-os uns dos outros para melhor dominá-los com um oculto poder internacional; preparar conflitos de classe separando os proprietários dos empregados; debilitar e destruir o amor à pátria; na família separar o esposo da esposa, tornando legal e facilitando cada vez mais o divórcio; separar, por fim, os filhos de seus progenitores para fazer deles a presa das escolas chamadas neutras, na verdade ímpias, e do Estado ateu.

A Maçonaria pretende também, contribuir com o progresso da civilização rechaçando toda revelação divina, toda autoridade religiosa: os mistérios e os milagres devem ser desterrados do programa cientifico. O pecado original, os Sacramentos, a graça, a oração, os deveres para com Deus são absolutamente desprezados, assim como toda distinção entre o bem e o mal. O bem se reduz ao útil, toda obrigação moral desaparece, as penas de além terra desaparecem. A autoridade não vem de Deus, mas do povo soberano.

Reina na Maçonaria particular ódio contra Cristo.

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Reginald GARRIGOU-LAGRANGE O.P. La vida eterna y la profundidad del alma,Madrid: Ediciones Rialp, 1952.

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